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Carlos Augusto Toigo, Psicanalista
30 Apr
30Apr

Há uma queixa que aparece com frequência na clínica. A pessoa diz que quer amar, que sente falta de uma relação, que está cansada da solidão. Mas quando a relação aparece, algo trava. Surge uma reserva, uma desconfiança, uma exigência silenciosa de garantia. A pessoa quer ser amada de uma forma muito específica antes de se permitir amar de volta.

Quando se trabalha o que está em jogo nessa exigência, costuma aparecer uma figura por trás: a mãe. Não a mãe real, mas o lugar materno — o lugar de um amor imaginado como incondicional, sem exigência de retribuição, sem risco de acabar. É esse amor que muitas pessoas, sem perceber, esperam encontrar na parceria adulta.

E é aí que o impasse se instala. Porque o amor entre dois adultos não funciona assim.

O amor materno como ficção fundadora

A psicanálise há muito identificou que o primeiro vínculo amoroso da vida é com aquela que cuida — geralmente, mas não exclusivamente, a mãe. Esse vínculo se inscreve como matriz: a partir dele o sujeito aprende o que é ser cuidado, ser olhado, ser desejado por outro.

Mas é preciso dizer: o amor materno incondicional não existe como dado da realidade. Toda mãe ama com ambivalência. Toda mãe tem cansaço, irritação, momentos em que o filho a desorganiza. O que existe é uma fantasia retrospectiva — uma imagem construída pelo próprio sujeito de que houve, no início da vida, um tempo de amor sem condições.

Essa fantasia tem função. Ela funda no sujeito a crença de que o amor é possível. Mas quando ela se torna modelo para o amor adulto, vira armadilha.

O amor adulto pede outra coisa

O amor entre dois adultos não é o amor materno. Não é incondicional. Não dispensa retribuição. Não funciona sem risco.

O amor entre dois adultos é uma aposta. É um ato de fé sem garantia. Ama-se sem saber se será amado de volta com a mesma intensidade. Ama-se sem saber se a relação vai durar. Ama-se sabendo que a outra pessoa um dia pode partir, mudar, faltar.

É essa falta de garantia que muitos sujeitos não suportam. Por isso, sem perceber, exigem da parceria algo que nenhuma parceria adulta pode oferecer: a certeza prévia de que o amor não vai falhar.

Quando essa certeza é exigida como condição, o amor não acontece. Não porque o outro não ame — mas porque o sujeito recusa entrar no jogo. Pede-se à parceira ou ao parceiro que prove o amor antes que se possa amar. E essa prova nunca é suficiente, porque o que se busca de fato não é prova de amor: é a ausência da possibilidade de perda.

O trabalho do amor

Freud falava em Liebesarbeit, o trabalho do amor. 

Amar custa. Custa porque exige reconhecer o outro como alguém com desejo próprio, que pode partir, que vai falhar em algum momento. Custa porque exige entregar-se sabendo que se pode perder.

Mas esse custo não é peso pelo peso. Quem ama de fato encontra no próprio ato de amar uma satisfação que não depende inteiramente da resposta do outro. Há prazer em desejar. Há prazer em se aproximar. Há prazer em construir a relação dia a dia, em encantar e ser encantado, em seduzir e ser seduzido.

Esse prazer é vedado para quem espera ser amado primeiro como condição. Porque enquanto se espera, não se ama. E não amar é também não viver a parte do amor que cabe ao sujeito viver.

Onde isso aparece na vida

Essa configuração não é exclusiva de um gênero ou de uma forma específica de relação. Aparece em homens que esperam de uma mulher o cuidado materno que não tiveram. Aparece em mulheres que querem garantia de escolha antes de se entregar. Aparece em relações homoafetivas, em relações abertas, em qualquer configuração onde alguém está esperando garantia para começar a amar.

O que a clínica mostra é que essa espera pode durar a vida inteira. A pessoa envelhece esperando o amor que vai chegar e dispensar dela qualquer risco. E esse amor não chega — porque amor sem risco não existe.

Da espera para o ato

A análise não promete fazer alguém amar. Ninguém ensina a amar. O que a análise pode fazer é trabalhar com o sujeito a fantasia que sustenta a espera.

Quando essa fantasia é desmontada — quando se reconhece que o amor materno incondicional foi uma construção, não um fato; e que o amor adulto é por natureza arriscado — algo se desloca. Aparece a possibilidade de uma aposta. De um ato.

E é nesse ato, e não na espera, que o amor se inscreve.

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