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Carlos Augusto Toigo, Psicanalista
09 Apr
09Apr

Carlos ToigoPsicanalista — especialização em neuropsicoanálise aplicada à liderança

"Em suma, a angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar. É isso aí, a angústia."Jacques Lacan, Seminário 4, 1956-57

Resumo

O presente artigo propõe uma leitura da angústia contemporânea a partir da articulação entre o Seminário 10 e o Seminário 17 de Jacques Lacan, tendo como eixo o conceito de mais-de-gozar e sua incidência no sujeito produzido pelo discurso capitalista. Argumenta-se que o aumento expressivo dos diagnósticos de transtornos ansiosos nas últimas décadas aponta para uma configuração específica do nó Real-Simbólico-Imaginário no laço social contemporâneo: um Simbólico desancorado do Real, que opera em circuito fechado com o Imaginário, produzindo angústia como subproduto estrutural. O discurso capitalista, compreendido não como crítica a um sistema econômico, mas como denominação lacaniana de uma estrutura de linguagem que historicamente se consolidou com o capitalismo tardio, opera convertendo o impossível estrutural, ou seja a falta normal e esperada constitutiva de qualquer forma de existência do sujeito, em impotência individual, gerando vergonha como afeto dominante onde deveria haver falta como condição do desejo. A partir dessa tese, examina-se a posição discursiva dos tratamentos sintomáticos predominantes, não para negar sua eficácia técnica, mas para interrogar sua cumplicidade estrutural com o mesmo discurso que produz o sofrimento que pretendem tratar. Byung-Chul Han é convocado como interlocutor filosófico que nomeia, de outro lugar, o mesmo campo. O artigo encerra sem propor solução alternativa, sustentando que a pergunta, o que se perde quando o sintoma é suprimido antes de ser escutado? é em si mesma um posicionamento clínico e ético.

Palavras-chave: angústia; discurso capitalista; mais-de-gozar; Real; vergonha; sujeito; sintoma; psicanálise lacaniana.

Abstract

The present article proposes a reading of contemporary anxiety through the articulation between Lacan’s Seminar 10 and Seminar 17, with the concept of surplus jouissance (plus-de-jouir) and its incidence on the subject produced by capitalist discourse as its central axis. It is argued that the significant increase in diagnoses of anxiety disorders in recent decades points to a specific configuration of the Real-Symbolic-Imaginary knot in the contemporary social bond: a Symbolic unanchored from the Real, operating in a closed circuit with the Imaginary and producing anxiety as a structural byproduct.The capitalist discourse understood not as a critique of an economic system, but as Lacan’s designation for a structure of language that historically consolidated itself with late capitalism operates by converting the structural impossibility, that is, the normal and expected lack constitutive of any form of the subject’s existence, into individual impotence. In doing so, it generates shame as the dominant affect in the place where lack should function as the condition of desire.From this thesis, the article examines the discursive position of the predominant symptomatic treatments, not to deny their technical efficacy, but to interrogate their structural complicity with the very discourse that produces the suffering they seek to treat. Byung-Chul Han is summoned as a philosophical interlocutor who names, from another perspective, the same field. The article concludes without proposing an alternative solution, maintaining that the question “What is lost when the symptom is suppressed before it is heard?” is in itself a clinical and ethical positioning.

Keywords: anxiety; capitalist discourse; surplus jouissance; Real; shame; subject; symptom; Lacanian psychoanalysis.

1. Introdução: o paradoxo que o dado não resolve

Em setembro de 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou o relatório World Mental Health Today, cujos números constituem, ao mesmo tempo, um diagnóstico e um enigma: mais de um bilhão de pessoas vivem com algum transtorno mental, ansiedade e depressão respondem por mais de dois terços dos casos, e o consumo de psicofármacos em países como o Brasil cresceu 18,6% em apenas dois anos — sem que houvesse redução proporcional da prevalência. Trata-se de um paradoxo que a epidemiologia registra mas não resolve: nunca se tratou tanto, e nunca se adoeceu tanto.A pergunta que orienta este artigo não é epidemiológica. Não se trata de explicar por que há mais ansiosos, essa questão, legítima em si, remete a determinantes sociais, históricos e neurobiológicos amplamente documentados. A pergunta é outra, e mais incômoda: por que o tratamento vigente não faz recuar os números? E, mais precisamente: o que esse fracasso relativo revela sobre a natureza do sofrimento que está sendo tratado?A hipótese que se sustentará ao longo deste texto é que a angústia contemporânea constitui uma forma específica de mais-de-gozar sem ancoragem no Real. Não é, portanto, um transtorno que aguarda o tratamento adequado. É o efeito de uma configuração do laço social que opera segundo uma lógica determinada: a do discurso capitalista, tal como Lacan o formulou em sua conferência de Milão, em 1972, compreendido não como crítica a um sistema econômico, mas como denominação de uma estrutura de linguagem que historicamente se consolidou com o capitalismo tardio, como evolução e torção do discurso do Mestre.A partir dessa tese, será possível interrogar a posição discursiva dos tratamentos predominantes não pela via da ineficácia técnica, que não está em questão, mas pela via da cumplicidade estrutural: ao responder à demanda nos termos em que ela é formulada, o tratamento sintomático permanece no interior do mesmo discurso que produziu o sofrimento. O paradoxo dos números não é, assim, um fracasso do tratamento. É sua consequência lógica.

2. A angústia em Lacan: o afeto que não engana

2.1 Distinção inaugural: angústia não é ansiedade

O primeiro gesto necessário, e o mais decisivo é distinguir angústia de ansiedade. A distinção não é terminológica; é clínica e estrutural. A ansiedade, tal como os sistemas diagnósticos contemporâneos a descrevem, é um conjunto de sintomas: preocupação excessiva, hipervigilância, tensão muscular, perturbação do sono, evitação. É um fenômeno observável, mensurável por escalas, tratável por protocolos. A angústia, no campo lacaniano, é outra coisa: é um afeto. E o único afeto que, segundo Lacan, não engana.No Seminário 10, Lacan elabora essa proposição com precisão. Enquanto os demais afetos podem ser deslocados, invertidos, disfarçados, assim como alegria pode encobrir angústia, onde o entusiasmo pode ser uma formação reativa, a angústia resiste à dissimulação porque ela não é da ordem do significante. Ela não representa o sujeito. Ela o assalta. Sua função é a de sinal: sinal de que algo do Real se aproxima, de que o objeto a, causa de desejo, resto inevitável da operação significante, ameaça comparecer sem a mediação simbólica que o mantém à distância."A angústia é o que não engana. Tudo o que é da ordem do sinal pode enganar, com exceção da angústia. [...] É precisamente na medida em que o objeto a cobre o que chamei de buraco da falta que a angústia é suscitada." (Lacan, Seminário 10, 1962-63/2005, p. 88)O objeto a, nessa formulação, é o que resta do sujeito após a operação de alienação ao campo do Outro: um resto que não se simboliza, que escapa ao sentido, e que é precisamente por isso que ele funciona como causa do desejo. O desejo se sustenta porque o objeto é, estruturalmente, perdido. Quando essa perda é ameaçada, quando o objeto parece prestes a se revelar, a comparecer em sua plena presença, é a angústia que sinaliza o perigo.Daí a formulação lacaniana que inverte a equação freudiana: não é a ausência do objeto que produz angústia, mas sua iminência. A angústia não é sinal da falta, é sinal da falta da falta. É quando o espaço da falta, que sustenta o desejo, é ameaçado de fechamento que a angústia irrompe.Essa dimensão estrutural da angústia encontra sua expressão temporal numa formulação do Seminário 4, onde Lacan a descreve a partir da experiência do sujeito que a atravessa:"Em suma, a angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção a um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais se poderá reencontrar. É isso aí, a angústia." (Lacan, Seminário 4, 1956-57)A angústia é, portanto, simultaneamente estrutural e temporal: é o sinal de que o Real se aproxima e é a experiência de suspensão entre dois estados, nenhum dos quais está disponível como ponto de apoio. O sujeito angustiado não sabe mais quem era e ainda não sabe quem será. Como se verá adiante, o discurso capitalista contemporâneo transforma essa suspensão passageira em condição permanente de existência.

2.2 A ansiedade como defesa: o sinal que protege do sinal

Se a angústia é o afeto que não engana, a ansiedade, enquanto sintoma, cumpre uma função defensiva em relação a ela. A ansiedade traduz o insuportável da angústia em objeto nomeável: transforma o encontro com o Real numa queixa gerenciável, num conjunto de sintomas classificáveis, num problema que aguarda solução, um tratamento. Essa tradução tem uma função protetora, ela mantém o sujeito à distância de algo que, em sua forma bruta, seria insuportável, a angústia.É importante notar que a ansiedade não é, nesse sentido, da ordem do instinto ou de um mecanismo puramente biológico de alerta, o que implicaria objeto fixo e satisfação determinada, noções incompatíveis com a estrutura pulsional. Ela é, antes, uma formação do sujeito que modula o contato com a angústia: uma borda construída pelo sujeito para não ser inteiramente engolido pelo Real que a angústia sinaliza. A neuropsicoanálise corrobora esse entendimento de outro lugar: o sistema de alarme do eixo HPA, a resposta de estresse, o cortisol, a hipervigilância, é uma função adaptativa que em condições normais sinaliza ameaça e se desativa após a resposta. O que a clínica contemporânea documenta é um sistema que não se desativa, porque não há ameaça externa clara a ser resolvida — apenas a pressão difusa e contínua do discurso de desempenho.O problema clínico não é a ansiedade em si, é o que acontece quando ela é tratada como destino e não como sinal. Tratar a ansiedade sintomaticamente é reforçar a borda que o sujeito construiu para não encontrar o que a angústia aponta. O sujeito ganha alívio, mas perde o sinal. E é exatamente essa operação, transformar angústia em ansiedade para que ela possa ser gerenciada sem interpelar o sujeito, que o discurso capitalista e os tratamentos sintomáticos promovem.

2.3 Compulsão à repetição e impasse da simbolização

A articulação entre o Seminário 10 e o Seminário 17 permite dar um passo adiante. Se a angústia é sinal de que o objeto a se aproxima sem mediação simbólica, a pergunta que se impõe é: o que produz essa aproximação? O que, na configuração do laço social contemporâneo, faz com que o objeto a circule sem a distância estruturalmente necessária ao desejo?No Seminário 17, Lacan introduz o conceito de mais-de-gozar (plus-de-jouir) em analogia com a mais-valia de Marx: assim como o capitalismo retém um excedente do capital gerado pelo trabalho que não retorna ao trabalhador como valor, o,lucro do capitalista, Lacan observa que o laço social opera extraindo do sujeito uma quantidade de gozo que não se elabora, não é significado e não retorna como saber. É um gozo que circula, que se repete, que se acumula, mas que não produz laço, não produz sentido, não abre para o desejo.A compulsão à repetição, que Freud situa para além do princípio do prazer e que Lacan relê à luz do Real, é precisamente o circuito pelo qual o sujeito retorna ao mesmo ponto sem atravessá-lo. Não porque seja fraco ou renitente, mas porque a economia pulsional em que está inscrito não oferece a ancoragem no Real que permitiria a elaboração. O sujeito repete não porque quer, mas porque o discurso em que está inserido não produz a falta necessária para que algo diferente possa advir.

3. O discurso capitalista e o Simbólico desancorado do Real

3.1 Os quatro discursos e a torção capitalista

Os quatro discursos (Lacan, Seminário 17)Posições: Agente → Outro / Verdade ∴ Produção

Discurso do MestreDiscurso da UniversidadeDiscurso da HistéricaDiscurso do Analista
S1 → S2
―――――
$ ∴ a
S2 → a
―――――
S1 ∴ $
$ → S1
―――――
a ∴ S2
a → $
―――――
S2 ∴ S1

Legenda: S1 = significante mestre; S2 = saber; $ = sujeito barrado; a = objeto a. → = relação agente–Outro (linha superior); ∴ = relação verdade–produção (linha inferior). A barra separa as duas relações.

No Seminário 17, Lacan formaliza quatro discursos — do Mestre, da Histérica, da Universidade e do Analista — como estruturas de linguagem que determinam modalidades específicas de laço social. Cada discurso é composto por quatro termos ($, S1, S2, a) dispostos em quatro posições — agente, Outro, produção, verdade — e o que os diferencia é a relação que cada arranjo estabelece entre esses termos. O fundamental é que todos os quatro discursos compartilham uma propriedade: há sempre um impossível constitutivo, um resto que não se absorve, uma perda que sustenta o laço. É essa impossibilidade que torna o laço social possível, porque é ela que mantém o desejo em circulação.O discurso do capitalista — denominação que Lacan atribui não a um sistema econômico, mas a uma estrutura de linguagem que historicamente se consolidou com o capitalismo tardio, como variante e evolução do discurso do Mestre, opera por uma modificação singular: o corte da transmissão entre sujeito e verdade. Nele, o sujeito barrado ($) ocupa o lugar do agente, mas a transmissão que deveria conectá-lo ao campo da verdade, ao S1, ao significante mestre que o representa, está cortada. O sujeito não se dirige ao Outro como interlocutor que poderia devolver-lhe uma verdade sobre si mesmo. Ele se dirige diretamente ao objeto a: o produto, a mercadoria, o objeto de consumo que promete tamponar a falta.O resultado é um circuito fechado que se alimenta de si mesmo: produtivo, eficiente, autossuficiente, e por isso mesmo incapaz de suportar o sujeito. O que o discurso do capitalista produz não é sujeitos: é usuários. Lacan observa, na conferência de Milão, que esse discurso funciona "muito bem", e é exatamente por isso que é perigoso. Ele não produz o impossível que os outros discursos comportam. Ele promete suprimí-lo.

3.2 O Simbólico sem ancoragem no Real: a especificidade contemporânea

Aqui é necessário introduzir uma precisão que o artigo propõe como contribuição específica: o problema da angústia contemporânea não é apenas o excesso de mais-de-gozar, é a desancoragem do Simbólico em relação ao Real. O nó borromeano RSI está frouxo de um lado determinado, e essa frouxidão tem consequências que a noção de excesso de gozo isoladamente não captura.O Simbólico, como ordem da linguagem e do laço social, sempre operou em tensão com o Real, com o seu resto que resiste à simbolização, que escapa ao sentido, que força o sujeito a reorganizar suas coordenadas. Essa tensão é fértil: é ela que impede o Simbólico de se fechar sobre si mesmo, que mantém o sujeito em contato com a dimensão de impossibilidade que sustenta o desejo. O Real funciona, nesse sentido, como limitador e orientador do Simbólico, é o que impede que a linguagem se torne delírio autorreferente.O que o discurso capitalista contemporâneo produz, e o que as redes sociais intensificam de forma inédita, é um regime em que o Simbólico opera em circuito fechado com o Imaginário, sem encontrar ancoragem no Real. O sujeito circula entre significantes de desempenho e imagens que ignoram o Real: o corpo que não pode cansar, o tempo que nunca basta, o fracasso que não é opção, o envelhecimento natural do corpo não é aceito, e a morte que se aproxima, nada disso pode ser integrado como experiência porque o discurso não oferece coordenadas para recebê-lo. As redes sociais são o dispositivo técnico que radicaliza essa configuração: nelas, o Imaginário hipertrofia sem limite, sustentado por um Simbólico que produz narrativas de sucesso e otimização sem jamais encontrar a resistência do Real, ou seja sem a exaustão ou o limite do corpo ou mente, que as forçaria a se reorganizar.A angústia que resulta dessa configuração não é apenas sinal de que o objeto a se aproxima, é sinal de que o sujeito perdeu as coordenadas simbólicas que lhe permitiriam localizar-se em relação ao Real. O sujeito angustiado contemporâneo não sabe mais onde está, não porque algo extraordinário aconteceu, mas porque o discurso em que está inserido não o preparou para encontrar o Real característico de sua condição: a falta, a dependência, o fracasso, a finitude.

3.3 Do impossível à impotência: a vergonha como afeto produzido

Há uma operação específica que o discurso capitalista realiza sobre a relação do sujeito com o Real, e ela é decisiva para compreender a especificidade da angústia contemporânea: a conversão do impossível estrutural em impotência individual.Lacan distingue, nos Seminários, a impotência e a impossibilidade. A impotência é da ordem do Imaginário, "não consigo", "falhei", "sou insuficiente". O impossível é da ordem do Real, é estrutural, constitutivo, não depende do sujeito particular. Ser pleno, sem falta, sem furos, é estruturalmente impossível para qualquer sujeito: não porque o sujeito seja deficiente, mas porque a constituição do sujeito implica, necessariamente, uma perda. O sujeito é sujeito porque foi submetido à operação significante, e essa operação produz um resto que nunca se recupera.O discurso capitalista, e o imperativo de desempenho que o caracteriza, apresenta o impossível como meta alcançável. "Você consegue." "Não há limites." "Seja a melhor versão de si mesmo." Produzo logo existo: eis a fórmula contemporânea que torce o cogito cartesiano e faz do sujeito uma função de seu output. Quando o sujeito inevitavelmente confronta o Real, quando fracassa, quando cansa, quando não consegue — a falha é lida não como encontro com o impossível estrutural, mas como deficiência pessoal. A impotência substitui o impossível.O afeto que resulta dessa substituição é a vergonha, e a escolha do termo não é ao acaso. A distinção entre vergonha e culpa tem estatuto clínico e estrutural preciso. A culpa é solidária ao Édipo: ela pressupõe um sujeito que transgrediu uma lei, que desejou o proibido, que responde perante um supereu herdeiro da castração simbólica. Ela implica falta, desejo, proibição e, por isso, admite reparação. "Fiz algo errado" abre, ao menos em princípio, para a possibilidade de fazer diferente. A culpa é, nesse sentido, um afeto que ainda supõe o sujeito como agente de seus atos, ele constata que há quem é responsável por eles, ou seja ele mesmo. A vergonha opera em registro anterior e mais primitivo. Ela não é da ordem da transgressão, mas da exposição: é o afeto que emerge quando o sujeito se sente visto naquilo que lhe falta, surpreendido na própria insuficiência, reduzido a objeto do olhar do Outro. Lacan a articula, no Seminário 10, precisamente ao registro do olhar, ser visto como a, como resto, como dejeto da imagem que o Outro sustenta. Ela não diz "fiz algo errado": diz "sou algo errado, que não funciona como o esperado, está quebrado", isso cola no ser, não no ato. Enquanto a culpa pressupõe a lei e portanto o Simbólico, a vergonha se enraíza no Imaginário e no narcisismo: ela incide sobre a imagem de si, sobre o eu ideal que não foi sustentado, sobre o espelho que devolve uma imagem insuficiente. É por isso que ela é mais difusa, mais resistente à elaboração simbólica, mais difícil de nomear e de atravessar. A culpa pode ser confessada; a vergonha, quando profunda, sequer encontra palavras, porque ela precede o nível em que as palavras operam. O discurso capitalista produz vergonha, e não culpa, precisamente porque não opera pela via da proibição. Ele não diz "não podes": diz "você consegue". Não há lei transgredida quando o sujeito fracassa, há uma promessa não cumprida, uma performance insuficiente, uma imagem que não se sustentou. O impossível que o Real impõe não é vivido como limite estrutural, mas como falha pessoal de quem não foi suficientemente capaz. Essa é a operação que converte impossível em impotência: ela não convoca culpa, porque não há lei em jogo; convoca vergonha, porque o que está em jogo é a imagem de um sujeito que deveria ser pleno e não é. As redes sociais radicalizam essa configuração ao máximo: o perfil é a vitrine permanente de uma imagem de completude, e qualquer fissura nessa imagem, qualquer sinal de que o sujeito não está à altura do ideal, convoca a vergonha como afeto imediato, não porque o sujeito transgrediu alguma norma, mas porque foi exposto como realmente é, e não como desejava ser visto.O que torna essa operação particularmente cruel é que ela incide exatamente sobre o que o sujeito tem de mais constitutivo. A falta não é déficit a ser corrigido, é condição do desejo. É porque há falta que há desejo; é porque há impossibilidade que há movimento, é porque se fracassa que se recomeça. A insuficiência que o discurso capitalista transforma em vergonha é precisamente o que move o sujeito em direção ao Outro, o que o mantém em laço, o que torna a conquista, qualquer conquista, mesmo a modesta, uma experiência genuína de satisfação. Somos seres faltosos e dependentes: necessitamos da intersubjetividade para existir, e o fracasso, quando atravessado e não suprimido, pode ser a experiência mais fértil de uma existência. A vergonha de não ser pleno rouba esse privilégio: torna o encontro com o Real insuportável antes que ele possa ser fértil.

4. Han como testemunha: o sujeito de desempenho e o imperativo do gozo

Byung-Chul Han, sem o aparato lacaniano mas a partir de uma tradição filosófica que passa por Heidegger e Hannah Arendt, chega ao mesmo campo por outro caminho. Em A Sociedade do Cansaço (2010), Han propõe que a patologia característica do século XXI não é mais produzida pela repressão externa, pela negatividade da proibição, do dever, do não-podes, mas pelo excesso de positividade: o imperativo "você consegue", "tudo é possível", "maximize seu potencial".O sujeito de desempenho de Han é simultaneamente explorador e explorado: ele se impõe a si mesmo o que nenhum patrão ou norma externa precisaria mais impor, porque internalizou a lógica da performance como lei íntima. Não há Outro que o obrigue, e é exatamente por isso que não há limite. A dominação contemporânea é invisível porque se exerce pela via da liberdade: o sujeito é "livre" para se explorar sem descanso."O que torna doente, na realidade, não é o excesso de responsabilidade e iniciativa, mas o imperativo do desempenho como um novo mandato da sociedade pós-moderna do trabalho. [...] O sujeito de desempenho se entrega à liberdade coercitiva ou à livre coerção do maximizar o desempenho." (Han, A Sociedade do Cansaço, 2017, p. 27-30)Em termos lacanianos, o que Han descreve é o $ sem mediação do Outro simbólico: um sujeito que se dirige diretamente ao objeto a sem passar pela interlocução que introduziria limite e, portanto, desejo. O imperativo "você consegue" é a forma contemporânea do supereu que não proíbe mas exige o gozo, o que Lacan, no Seminário 20, formulará como "Goza!". A ansiedade por resultados que Han identifica como patologia central da sociedade de desempenho é, em termos do Seminário 10, o efeito da falta da falta: o sujeito angústia porque o espaço do impossível foi suprimido pelo imperativo de performance.A convergência entre Han e Lacan não é coincidência: ambos descrevem, de campos distintos, um regime em que o sujeito é eliminado em proveito do indivíduo, do indivíduo produtivo, otimizável, gerenciável. Han nomeia o fenômeno social com precisão filosófica; Lacan oferece os instrumentos para pensar o que acontece no interior do sujeito. É por isso que Han entra neste artigo como testemunha, alguém que, de outro lugar, vê o mesmo campo, e não como coautor de um argumento que requer a teoria do sujeito que ele não tem.Em Agonia do Eros (2012), Han acrescenta uma dimensão que complementa o argumento: a erosão do Outro como alteridade. O outro deixa de ser diferença, aquele que me resiste, que me surpreende, que me força a reorganizar, e se torna superfície de projeção narcísica. Quando o Outro some como alteridade real, o sujeito perde também o espelho que lhe permitiria reconhecer sua falta sem vergonha. O laço social, que deveria ser o lugar onde a falta encontra o Outro e se transforma em desejo, torna-se circuito de confirmação imaginária. O Real do Outro — sua opacidade, sua irredutibilidade — é evacuado.

5. O tratamento como operação discursiva

5.1 A demanda já vem formulada

A crítica que se desenvolve nesta seção não é dirigida à eficácia técnica dos tratamentos predominantes para transtornos ansiosos. A terapia cognitivo-comportamental produz resultados mensuráveis em redução de sintomas; a farmacologia ansiolítica e antidepressiva tem eficácia demonstrada no curto e médio prazo. Negar isso seria clinicamente irresponsável e teoricamente ingênuo. O problema não é a técnica, é a posição discursiva.A demanda que chega ao consultório, a qualquer consultório, independentemente da orientação teórica do clínico, já vem formulada nos termos do discurso que a produziu. "Quero parar de travar nas reuniões." "Preciso voltar a funcionar." "Quero conseguir dormir e trabalhar normalmente." São formulações legítimas e urgentes. Mas elas trazem em si uma configuração do problema: o sofrimento é um obstáculo ao desempenho, e o tratamento é o que remove o obstáculo. O sujeito não está em questão, o que está em questão é sua funcionalidade.Responder a essa demanda nos termos em que ela é formulada é permanecer no interior do discurso que a configurou. Não por má-fé, não por incompetência: por posição estrutural. O tratamento que visa restaurar o funcionamento está, sem o saber, validando a premissa de que o funcionamento é o critério de saúde, e que a falta, a impotência, o fracasso são problemas a serem corrigidos e não encontros com o Real a serem atravessados.

5.2 O paradoxo farmacológico como ilustração

Os dados epidemiológicos registram um fenômeno paradoxal que a teoria permite interpretar. Um estudo de base populacional conduzido pelo UK Biobank constatou que o aumento expressivo na prescrição de antidepressivos ao longo das últimas duas décadas é atribuído, pelos próprios pesquisadores, ao tratamento de longo prazo e não ao aumento da incidência, o que significa: não há mais doentes, há os mesmos doentes permanecendo em tratamento por tempo indefinido. No Brasil, o crescimento de 18,6% no consumo de medicamentos para saúde mental entre 2022 e 2024 não foi acompanhado de redução correspondente nos índices de prevalência.Esses números não provam a tese, ilustram o que a tese permite ver. Um tratamento que atua sobre o sintoma sem alterar a estrutura que o produz não resolve: estabiliza. E ao estabilizar, ao devolver o sujeito ao circuito produtivo com o sintoma suprimido mas a economia pulsional intacta, garante o retorno ao mesmo ponto. A recaída de 56% em um ano após a descontinuação de antidepressivos, documentada pelo New England Journal of Medicine, não é uma falha do medicamento. É a consequência lógica de uma intervenção que operou no nível do sinal sem tocar na estrutura que o produziu.O sujeito retorna ao circuito, e o circuito o produz, novamente, ansioso. A indústria farmacêutica e a clínica de protocolos breves não são vilãs nesse movimento: elas respondem a uma lógica que as precede e as excede. Mas sua posição no circuito, oferecer ao sujeito um objeto que promete tamponar a falta, é estruturalmente homóloga à do discurso capitalista. O sujeito de desempenho, ao procurar tratamento, encontra uma oferta de otimização.

6. Uma vinheta: o que se perde quando o sintoma é anestesiado

Um paciente, que chamaremos de C., chega ao consultório com diagnóstico já constituído, autismo e TDAH, confirmados por avaliação psiquiátrica e testagem psicológica padronizada. Segue tratamento farmacológico e acompanhamento comportamental há dois anos. A demanda que traz é precisa: os diagnósticos explicam, mas não aliviam. Ele sabe o que tem; não sabe o que fazer com o que sente.Nas entrevistas preliminares emerge uma angústia que os diagnósticos nomeiam sem tocar: a de não ser suficiente. O autismo e o TDAH funcionam, nesse caso, como tentativa de localizar no orgânico uma falha que o discurso já havia convertido em veredicto subjetivo — não sou normal, não “funciono” como deveria. O diagnóstico oferece identidade, mas dentro da lógica do desempenho: nomeia a deficiência sem interrogar quem exigiu a performance que a tornou visível. A angústia permanece, agora com laudo.C. trabalha em dois empregos que demandam alto rendimento intelectual e preenche o restante do dia com atividades comunitárias de exigência equivalente. Há também comportamentos compulsivos, compras, alimentação, que surgem nos intervalos em que a agenda cessa. O padrão é reconhecível: o sujeito não tolera o vazio, não porque seja impulsivo por constituição, mas porque o vazio convoca algo insuportável.Com o avanço das sessões, o que se articula é a seguinte configuração: C. produz para existir, não para si, mas para seus pais. A produtividade é o meio pelo qual ele se torna visível ao Outro. A lista infindável de tarefas, as metas sistematicamente irrealizáveis, o acúmulo que sobrecarrega a mente e esgota o corpo, nada disso é excesso por descuido. É a economia de um sujeito que aprendeu que só há lugar para ele se houver resultado. O fracasso, quando inevitavelmente chega, não funciona como sinal de que algo precisa mudar: funciona como prova do que ele já suspeitava de si mesmo. Não como culpa de ter errado, mas como vergonha de ser insuficiente, invisível, imaginariamente, para o Outro que importa.O que o caso de C. ilustra não é apenas a incidência do discurso capitalista sobre um sujeito particular. Ilustra como esse discurso se articula com a estrutura de cada um: a exigência de desempenho encontrou em C. uma posição subjetiva já organizada em torno da necessidade de ser visto pelo Outro parental, e a potencializou. O diagnóstico, nesse contexto, não interrompeu o circuito, foi absorvido por ele. A psicanálise começa onde o diagnóstico para: na pergunta sobre o que esse sujeito faz com sua falta, e o que sua falta faz com ele.

7. O sujeito que não foi convocado

A angústia, Lacan nos ensina, não engana. Ela é o único afeto que aponta diretamente para o Real, para aquilo que não se simboliza, que não se representa, que resiste ao sentido. É, por isso, o ponto de maior proximidade do sujeito consigo mesmo: o momento em que a defesa fracassa e algo verdadeiro irrompe, ainda que insuportável.O sujeito contemporâneo não é apenas ansioso, é envergonhado. Envergonhado de sua falta, de sua dependência, de sua impotência diante de metas que o discurso apresenta como alcançáveis e que o Real torna impossíveis. Essa vergonha é cruel não porque seja falsa, mas porque incide exatamente sobre o que há de mais constitutivo no sujeito: a insuficiência que move o desejo, a falta que mantém o laço com o Outro, o fracasso que, quando atravessado e não suprimido, pode ser a experiência mais fértil de uma existência.Somos seres faltosos e dependentes: necessitamos da intersubjetividade para existir, e é a falta, não a completude, que nos mantém em relação. O outro existe como Outro real porque me resiste, porque não se reduz à minha imagem, porque me surpreende com o que eu não antecipei. Fracassar poderia ser o privilégio de se sentir fraco sem se sentir culpado: o encontro com o Real da própria condição, que abre para algo diferente. Mas o discurso capitalista transforma esse encontro em vergonha, e a vergonha fecha o sujeito sobre si mesmo, no exato momento em que ele deveria se abrir para o Outro.O Simbólico desancorado do Real não apenas produz angústia, produz um sujeito que não tem recursos para habitar sua própria falta. Porque habitar a falta requer que o Simbólico a nomeie sem dissolvê-la, que o Outro a reconheça sem corrigi-la, que o tempo da elaboração seja tolerado sem ser abreviado pela urgência do funcionamento. É exatamente isso que o discurso de desempenho não oferece, e que o tratamento sintomático, ao responder à demanda nos seus termos, não oferece tampouco.O que se perde quando o sintoma é suprimido antes de ser escutado? Perde-se a possibilidade de o sujeito descobrir que sua falta não é vergonha, é condição. Que sua impotência não é déficit, é o encontro com o impossível estrutural que faz de todo fracasso uma experiência genuinamente humana. Que a angústia, antes de ser um sintoma a tratar, é sinal a interrogar.A psicanálise não é imune ao discurso capitalista: ela pode ser capturada por ele, pode ser ofertada como técnica de otimização subjetiva, pode ser vendida como produto de autoconhecimento com prazo e resultado garantidos. O risco que ela incorre é ceder à tentação de outro discurso, o do Mestre. O psicanalista pode ser tentado a dar ao paciente um conselho, uma orientação de vida, uma forma de evitar a falta em vez de atravessá-la: abandonando a escuta do inconsciente para assumir o papel de coaching ou guru, manejos de sugestão que o psicanalista deve abrir mão de usar na sua clínica. A questão não é qual dispositivo clínico escapa ao discurso, é o que cada dispositivo faz com a tensão entre escutar o sujeito e responder à demanda do sistema. Essa tensão não tem resolução final. Sustentá-la, sem resolvê-la, é talvez a única posição ética disponível.

8. Considerações finais

Este artigo partiu de um paradoxo, o aumento simultâneo do tratamento e da prevalência para chegar a uma tese: a angústia contemporânea é efeito de um Simbólico desancorado do Real, produzido estruturalmente pelo discurso capitalista, que converte o impossível constitutivo em impotência individual e gera vergonha onde deveria haver falta como condição do desejo. Os tratamentos sintomáticos predominantes participam desse discurso não por intenção, mas por posição: ao responder à demanda nos termos em que ela é formulada, devolvem o sujeito ao circuito sem que ele tenha encontrado o Real de sua condição.O que se propôs não foi uma crítica técnica nem uma defesa de abordagem alternativa: propôs-se uma leitura que torna visível o que o dado não vê, a posição do sujeito no interior do discurso que o adoece e que, ao mesmo tempo, oferta sua cura. Lacan ensinou que a angústia não engana. Talvez o que ela sinalize, hoje, não seja apenas o perigo de um sujeito particular diante de seu objeto: seja o perigo de uma cultura que, ao acelerar o circuito do mais-de-gozar sem ancoragem no Real, produz vergonha em escala e então a trata como deficiência individual a ser corrigida.O sintoma coletivo aguarda, ainda, a pergunta que o interpelaria como sinal, e não como ruído.

Referências

Freud

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Lacan

LACAN, Jacques. O Seminário, livro 4: A relação de objeto (1956-57). Rio de Janeiro: Zahar, 1995.LACAN, Jacques. O Seminário, livro 10: A angústia (1962-63). Rio de Janeiro: Zahar, 2005.LACAN, Jacques. O Seminário, livro 17: O avesso da psicanálise (1969-70). Rio de Janeiro: Zahar, 1992.LACAN, Jacques. O Seminário, livro 20: Mais, ainda (1972-73). Rio de Janeiro: Zahar, 1985.LACAN, Jacques. Radiofonia (1970). In: Outros escritos. Rio de Janeiro: Zahar, 2003.LACAN, Jacques. Conferência em Milão [Du discours psychanalytique] (1972). In: Lacan in Italia. Milano: La Salamandra, 1978.HanHAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço (2010). Petrópolis: Vozes, 2017.HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder (2014). Belo Horizonte: Âyiné, 2018.HAN, Byung-Chul. A agonia do Eros (2012). Petrópolis: Vozes, 2017.

Secundários e contexto

MILLER, Jacques-Alain. A era do homem sem qualidades. Opção Lacaniana, n. 35, p. 7-17, 2003.ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. World mental health today: latest data. Genebra: OMS, 2025.ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Mental Health Atlas 2024. Genebra: OMS, 2025.LEWIS, Gemma et al. Maintenance or discontinuation of antidepressants in primary care. New England Journal of Medicine, v. 385, n. 14, p. 1257-1267, 2021.BANSAL, Narinder et al. Antidepressant use and risk of adverse outcomes: population-based cohort study. BJPsych Open, v. 8, n. 1, e9, 2022.

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