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Carlos Augusto Toigo, Psicanalista
10 Mar
10Mar

Carlos Augusto ToigoPsicanalista | Neuropsicanalista 

Todo mundo sente ansiedade. Isso não é um defeito — é uma ferramenta. Freud já dizia que a ansiedade é uma reação que nos protege: é ela que faz você olhar para os dois lados antes de atravessar a rua, que te mantém alerta quando algo não parece seguro. O problema começa quando essa ferramenta perde a medida. Quando o alarme que deveria soar diante de um perigo real começa a disparar o tempo todo — no trânsito, antes de dormir, numa conversa, sem motivo aparente. Aí a ansiedade deixa de proteger e passa a aprisionar. E o pior: quem não sente isso costuma achar que é simples resolver. "É só relaxar." "Para de pensar nisso." Quem vive a ansiedade sabe que não funciona assim. Porque o problema não está no pensamento que você consegue controlar — está naquilo que te controla sem que você perceba. 

Três formas de sentir medo do que ainda não aconteceu

 Freud identificou três tipos de ansiedade. Não são diagnósticos — são formas de entender de onde vem o medo que você sente. A ansiedade realística é a mais fácil de reconhecer. Ela aparece diante de perigos concretos: medo de sofrer um acidente, de ser assaltado, de algo que ameaça sua integridade física. Até aqui, tudo bem — esse medo te protege. O problema é quando a intensidade não combina com o perigo. Você não está dirigindo numa estrada perigosa — está parado em casa — mas o corpo reage como se estivesse. O coração dispara, as mãos suam, a respiração encurta. O alarme toca, mas não tem incêndio. Lembro de quando eu era criança. Eventualmente viajava de ônibus para visitar parentes, e havia uma travessia de ponte que me assustava — era alta, o rio era caudaloso. Nas primeiras vezes, o medo aparecia na hora de cruzar. Normal. Mas com o tempo, a ansiedade começou a chegar antes: alguns quilômetros antes da ponte, eu já fechava os olhos e me encolhia no banco. Depois, já ficava ansioso antes mesmo de sair de casa. O perigo era o mesmo — uma ponte. Mas o medo foi crescendo sozinho, ocupando espaços que não eram dele. É exatamente isso que a ansiedade faz quando sai do controle: ela se antecipa. Você não teme mais o que está acontecendo — teme o que pode acontecer. E esse "pode" é infinito. A ansiedade neurótica é mais difícil de identificar porque não tem um objeto claro. É um medo dos próprios pensamentos, da sensação de que algo vai dar errado sem saber exatamente o quê. A pessoa cria rituais e expectativas sobre como as coisas devem ser — e quando algo sai do script, mesmo algo pequeno, a angústia aparece. É como se existisse uma ordem imaginária de como a vida deveria funcionar, e qualquer ruptura nessa ordem fosse sentida como uma ameaça. Um objeto fora do lugar, um plano que muda, uma resposta que demora — tudo vira sinal de que algo terrível está por vir. A ansiedade moralística é o medo da punição — não necessariamente uma punição real, mas a que vem de dentro. É o medo de errar, de decepcionar, de quebrar uma regra social ou moral e ser julgado por isso. A pessoa vive sob o peso de um tribunal interno que nunca a absolve. Quem sente esse tipo de ansiedade frequentemente evita tomar decisões, foge de conflitos e busca a aprovação dos outros como se a vida dependesse disso. Porque, para essa pessoa, depende. O medo de não corresponder às expectativas — dela mesma ou dos outros — é vivido como uma ameaça real ao futuro que ela idealizou. 

O que a psicanálise de Lacan acrescenta a isso

 Freud nos deu as bases. Lacan foi além e fez uma pergunta que muda tudo: e se a ansiedade não for medo do que pode acontecer, mas um sinal de que algo verdadeiro está perto demais? Para Lacan, a ansiedade não é falta de algo — é excesso de presença. É quando aquilo que deveria ficar escondido, recalcado, protegido, de repente se aproxima demais. É como se o inconsciente batesse à porta e você sentisse que não está pronto para abrir. Pense assim: você convive bem com certas verdades sobre você mesmo enquanto elas ficam a uma distância segura. Mas quando algo acontece — uma separação, uma perda, uma mudança brusca — essas verdades se aproximam. E a ansiedade é o sinal de que isso está acontecendo. É por isso que a ansiedade muitas vezes aparece sem motivo aparente. O motivo existe — mas está num lugar que você ainda não consegue acessar sozinho. E é exatamente aí que a psicanálise entra. 

Quando o corpo grita o que a mente cala

 A ansiedade não fica só na cabeça. O corpo fala quando a palavra falta. Boca seca, tremores, nó na garganta, tontura, dor no peito, palpitação — são formas que o corpo encontra de expressar o que você não consegue dizer. Muita gente vai parar num pronto-socorro achando que está tendo um infarto. Faz exames, não encontra nada. Vai de novo. Nada. E a ansiedade de não saber o que tem gera mais ansiedade. É uma escalada que, sem acompanhamento, pode chegar ao ataque de pânico. Não é frescura. Não é "coisa da sua cabeça" — ou melhor, é da sua cabeça sim, mas isso não significa que não seja real. O sofrimento é real. O corpo que treme é real. E merece ser levado a sério. 

O preço de conviver com a ansiedade sem tratar

 O ego — a parte de você que tenta manter tudo funcionando — cria defesas para lidar com a ansiedade. Algumas são sutis: evitar situações, controlar tudo ao redor, se isolar. Outras são mais visíveis: irritabilidade constante, insônia, dificuldade de concentração. Essas defesas funcionam por um tempo, mas cobram um preço alto. A energia que você gasta tentando controlar a ansiedade é energia que falta para viver. Com o tempo, esse esgotamento pode abrir caminho para a depressão — não porque você é fraco, mas porque o sistema se sobrecarregou. E tem algo que piora tudo: a solidão do ansioso. As pessoas ao redor não entendem. Acham que é exagero. Essa incompreensão alimenta o medo de perder vínculos — e perder vínculos ameaça o futuro idealizado. A ansiedade se alimenta de si mesma. 

Existe caminho. E ele começa pela fala.

 Medicamento ajuda — e em casos graves, é necessário. Ele estabiliza os sintomas e te dá chão para começar a trabalhar o que está por trás. Mas medicamento sozinho trata o alarme, não a causa. Se as raízes inconscientes não forem escutadas, a ansiedade volta. A psicanálise propõe algo diferente: em vez de silenciar a ansiedade, escutá-la. O que ela está tentando te dizer? De que verdade você está fugindo? Que desejo está preso aí dentro? Não é um processo rápido e não promete conforto imediato. Mas é um processo que vai na raiz. Que te ajuda a entender por que você repete os mesmos padrões, por que certas situações te paralisam, por que o futuro parece sempre ameaçador. Você não precisa ter as respostas para começar. Só precisa aceitar que existe algo a ser escutado. O resto acontece no caminho. 

Se você se reconheceu em algo deste texto, talvez seja hora de conversar.

Carlos Augusto Toigo — Psicanalista 

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