Carlos Augusto Toigo
Psicanalista | Neuropsicanalista
"Você precisa largar o seu ego." "Fulano tem o ego inflado." "O ego é o inimigo."
Você provavelmente já ouviu — ou disse — algo assim. Nas redes sociais, em conversas sobre espiritualidade, em discussões que esquentam. O ego virou vilão. Algo a ser combatido, diminuído, eliminado.
O problema é que isso está errado. Não um pouco errado — fundamentalmente errado. E essa confusão, além de injusta com o nosso pobre ego, atrapalha as pessoas a entenderem o que realmente acontece dentro delas.
Na psicanálise, o ego é uma das três instâncias do aparelho psíquico descrito por Freud. As outras duas são o id — que é pura pulsão, desejo, busca de prazer imediato — e o superego — que são as regras, a moral, o "você não pode".
O ego é quem fica no meio. É ele que negocia entre o que você deseja e o que é aceitável, entre seus impulsos e a realidade. Ele é, literalmente, a parte de você que tenta manter tudo funcionando sem que você se destrua ou destrua suas relações.
Ou seja: o ego não é o problema. O ego é quem tenta resolver o problema.
Minha hipótese é que parte disso vem da própria palavra "egocêntrico". A estrutura é simples: ego (eu) + centro. Uma pessoa que coloca a si mesma no centro de tudo. Até aí, correto.
Mas o que aconteceu com o tempo foi uma simplificação: se egocêntrico é ruim, então ego é ruim. Como se a palavra "ego" carregasse em si algo negativo, sombrio, algo a ser temido. É como dizer que a palavra "centro" é o problema numa frase sobre "centro de detenção".
Essa leitura superficial acabou contaminando o senso comum. E o resultado é que muita gente usa "ego" como sinônimo de vaidade, arrogância ou egoísmo — quando na verdade essas coisas são sintomas de um ego fragilizado, não fortalecido.
Essa é a parte que surpreende a maioria das pessoas. O narcisista — aquela pessoa que parece se amar demais, que precisa de atenção constante, que não tolera crítica — não sofre de excesso de ego. Sofre de falta.
O que parece ser um ego inflado é na verdade uma fachada. Por dentro, existe uma autoimagem frágil, uma insegurança profunda que precisa ser compensada com aprovação externa constante. A pessoa cria uma versão grandiosa de si mesma justamente porque não confia na versão real.
Quando alguém diz "larga o ego", o que essa pessoa realmente precisaria ouvir é o contrário: "você precisa fortalecer o seu ego" — para conseguir enxergar a realidade sem precisar distorcê-la a seu favor.
Todos nós passamos por uma fase egocêntrica na infância — é normal e necessário. A criança pequena acha que o mundo gira em torno dela porque ainda não desenvolveu a capacidade de se colocar no lugar do outro. Com o tempo, isso muda. Ou deveria.
Quando não muda, temos o adulto egocêntrico: alguém que vê o mundo apenas pela própria lente, com pouca empatia, pouco interesse genuíno pelo que o outro sente ou pensa. É limitante, mas não é necessariamente um transtorno.
O narcisismo vai além. Existe uma necessidade ativa de validação, uma dependência da aprovação alheia para se sentir inteiro. E quando essa aprovação não vem, surgem a frustração, a raiva, a depressão — sem que a pessoa consiga identificar de onde vêm esses sentimentos. Porque reconhecer o problema significaria olhar para a fragilidade que o narcisismo tenta esconder.
Todo mundo é narcisista em algum grau, e isso pode ser saudável. O que determina se é problema ou não é justamente a saúde do ego — aquele mesmo ego que o senso comum manda você combater.
Lacan trouxe uma leitura que aprofunda essa discussão. Para ele, o ego se forma a partir do que ele chamou de estádio do espelho — o momento em que a criança se reconhece como uma imagem inteira, separada do mundo.
O ponto de Lacan é que essa imagem é, desde o início, uma ilusão. O ego é uma construção — necessária, mas imaginária. Ele nos dá uma sensação de unidade, de "eu sou isso", quando na verdade somos bem mais fragmentados do que gostaríamos de admitir.
Isso não significa que o ego seja ruim. Significa que ele é limitado. Ele nos organiza, mas também nos engana. O trabalho da psicanálise não é destruir o ego — é ajudar você a perceber onde ele te protege e onde ele te aprisiona numa imagem rígida de si mesmo.
Quando alguém nas redes sociais diz "mate o ego", Lacan diria algo como: "você nem sabe ainda o que é o seu ego — como pretende se livrar dele?"
Já reparou como a acusação "isso é ego" aparece sempre no meio de uma discussão? Alguém discorda de você e, em vez de debater o argumento, ataca: "Isso é seu ego falando."
É uma jogada curiosa, porque na maioria das vezes quem usa essa frase está fazendo exatamente o que acusa no outro: querendo que seu ponto de vista prevaleça, sem interesse real em ouvir. É, ironicamente, um comportamento narcísico — usar a palavra "ego" para desqualificar o outro e encerrar a conversa.
E as redes sociais pioram isso. Sem presença física, sem tom de voz, sem linguagem corporal, o texto puro amplifica mal-entendidos. Uma ironia vira ofensa. Um questionamento vira ataque. E a projeção — aquele mecanismo onde você enxerga no outro o que não quer ver em si — ganha terreno fértil.
A pessoa lê um comentário, se irrita, e em vez de se perguntar "por que isso me incomodou tanto?", projeta: "o problema é o ego do outro." Talvez, se ela parasse para pensar, descobrisse que o que a incomodou foi reconhecer algo de si mesma nas palavras do outro.
O ego não precisa ser derrotado. Precisa ser compreendido.
Um ego saudável e fortalecido é o que permite a você lidar com frustrações sem desmoronar, ouvir críticas sem se sentir destruído, reconhecer seus desejos sem ser escravo deles. É o que permite empatia — porque só consegue se colocar no lugar do outro quem tem segurança suficiente para sair do próprio lugar.
Então, da próxima vez que alguém te disser "larga o ego", você pode responder com tranquilidade: "Na verdade, eu estou tentando fortalecer o meu."
Se você se reconheceu em algo deste texto, talvez seja hora de conversar.
Carlos Augusto Toigo — Psicanalista
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