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Carlos Augusto Toigo, Psicanalista
22 Apr
22Apr

Você já tomou uma decisão que na hora parecia uma boa ideia e depois se perguntou: por que eu fiz essa besteira? Ou prometeu a si mesmo que ia mudar um padrão de comportamento, só para se ver repetindo o mesmo erro semanas depois?
Você não está ficando louco, isso é normal. O que acontece é que, em se tratando da mente, existe uma confusão fundamental sobre quem realmente está no comando.

Dois sistemas que operam dentro de você (mas não controla completamente)

Quando falamos de "mente" e "cérebro", muita gente usa as palavras como sinônimos. Mas na verdade, são sistemas diferentes que trabalham juntos — nem sempre em harmonia.
O cérebro é o órgão biológico. É ele que capta as sensações brutas do mundo: a luz que entra pelos seus olhos, o som que chega aos ouvidos, a temperatura na pele. O cérebro processa informações sensoriais a todo momento, muito antes de você ter qualquer pensamento "consciente" sobre elas.
A mente, por outro lado, é algo construído. Ela não nasce pronta. A mente é formada pela linguagem que você herdou da sua família, pela cultura em que cresceu, pelas experiências que viveu. É através da mente que você dá sentido ao mundo — e é aí que mora o ego.

O ego: o mediador que acha que manda (mas não manda)

Na psicanálise, o ego é aquela parte de você que tenta equilibrar três forças:

  • O mundo externo (a realidade, as outras pessoas, as regras sociais)
  • O mundo interno (seus desejos, suas pulsões, suas necessidades)
  • O superego (a lei internalizada, a moral, o "você deveria")


O ego faz esse trabalho de mediação constantemente. Ele é quem te ajuda a funcionar no dia a dia — acordar, ir trabalhar, interagir com as pessoas, tomar decisões práticas.

Mas aqui está o problema: o ego vive na ilusão de que está no controle.

Ele acredita que é o autor das suas escolhas, que suas decisões são resultado de uma análise racional e consciente. Mas Freud já avisava: o ego não é senhor em sua própria casa.

O inconsciente: quem realmente está no comando

Se o ego é o gerente que acha que manda, o inconsciente é o verdadeiro CEO — operando nos bastidores, tomando decisões que você só percebe depois.

O inconsciente não é uma "parte obscura" da mente. Ele é estruturado, organizado, e funciona de acordo com sua própria lógica. Lacan dizia que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, como as linhas de programação de um aplicativo — ele tem suas regras, suas repetições, seus padrões.

E é aqui que as coisas ficam interessantes (e às vezes assustadoras):

Muito do que você pensa ser uma escolha consciente já foi decidido pelo inconsciente antes mesmo de você "pensar" sobre isso.

Exemplos clínicos que você reconhece

  • A pessoa que sempre escolhe parceiros emocionalmente indisponíveis e depois se pergunta "por que eu não vejo os sinais antes?"
  • O profissional que sabota a própria carreira justo quando está prestes a ter sucesso
  • Quem promete mil vezes mudar um hábito, começar a academia na segunda, mas sempre falha e continua repetindo o mesmo padrão


O ego cria narrativas para explicar essas escolhas: "foi azar", "eu não percebi", "dessa vez vai ser diferente". Mas essas são racionalizações. O inconsciente está operando uma repetição — algo que Freud chamava de compulsão à repetição.

A ilusão do "eu" unificado

Aqui está uma verdade desconfortável: você não é uma pessoa coesa e unificada.

Você provavelmente já sentiu isso em momentos de contradição interna:

  • "Uma parte de mim quer ir, outra quer ficar"
  • "Eu sei que deveria fazer X, mas acabo fazendo Y"
  • "Não sei por que disse aquilo, não era isso que eu queria dizer"


Essas não são apenas "figuras de linguagem". São manifestações de uma verdade estrutural: o sujeito é dividido, fragmentado.

A sensação de ter um "eu" coerente, uma identidade sólida, um self unificado — isso é uma construção necessária para funcionar no mundo, mas é também uma ficção.

Os budistas já sabiam disso há milênios. Buda ensinava o conceito de "Anatta" — a inexistência de um eu permanente e imutável. No Taoísmo, o sábio é aquele que não se apega a uma identidade fixa, fluindo como a água que se adapta ao recipiente.

A psicanálise ocidental chegou à mesma conclusão por outro caminho: não através da meditação, mas da escuta do sintoma.

Onde está o "verdadeiro você"?

Muita gente vem para análise procurando "se encontrar", descobrir "quem eu realmente sou". E essa busca é legítima. Mas a psicanálise oferece uma resposta diferente do que a autoajuda promete.
Não existe um "eu verdadeiro" escondido esperando para ser descoberto. O que existe são camadas de sentido, fragmentos de experiência, marcas deixadas pela linguagem e pelas relações.
O trabalho analítico não é "encontrar a sua essência". É aprender a lidar com a divisão, reconhecer os padrões inconscientes, e ter mais liberdade sobre aquilo que se repete.
Existe uma liberdade muito grande em não ser, pois você tem mais liberdade, mas existe uma resistência muito grande do ego, pois essa fragmentação é assustadora, e em algumas estruturas como borderline, essa fragmentação pode levar a um surto psicótico, que é fragmentação a céu aberto, sem ancoragem e delirante. A liberdade de não ser só tem valor positivo quando se estrutura em um suporte simbólico, que vem do processo de análise, que permite a ancoragem no real para poder haver a liberdade de se reinventar.

Por que a força de vontade não funciona

Agora você entende por que aqueles planos de "mudar de vida" na virada do ano costumam fracassar.
Você pode usar toda a sua força de vontade consciente, mas se o inconsciente está operando um padrão diferente, a tendência é que o inconsciente vença. Sempre.
Não porque você é fraco. Mas porque o inconsciente é estruturalmente mais influente que a mente consciente.
Pense assim: o ego consciente é como a ponta do iceberg. Você vê, você controla (mais ou menos). Mas a maior parte do iceberg — a parte que realmente determina a direção — está submersa, invisível, inconsciente.

E agora? O que fazer com essa informação?

Se você não está no controle, se o inconsciente manda, se o "eu" é uma ilusão — qual o sentido de tudo isso?
O sentido está justamente em saber disso.
A psicanálise não promete te dar controle total sobre você mesmo. Isso seria vender uma ilusão. O que ela oferece é algo mais sutil e mais profundo:
A possibilidade de escutar o que está operando em você, reconhecer as repetições, e ter mais margem de manobra dentro daquilo que te constitui.
Você não vai "se libertar" do inconsciente (isso seria impossível). Mas pode criar uma relação diferente com ele. Pode parar de lutar contra forças que não entende e começar a reconhecer os padrões que te movem.

Conclusão: o sofrimento fala, mas será que você está pronto para ouvir?

O cérebro capta. A mente interpreta. O inconsciente decide.

E enquanto você não escutar o que o inconsciente está dizendo através dos seus sintomas, suas repetições, seus atos falhos — você vai continuar se perguntando "por que eu faço isso comigo?"

A psicanálise não oferece respostas prontas. Ela oferece um espaço para você escutar o que está tentando te dizer há muito tempo.



Se você reconhece esses padrões na sua vida e quer entender o que está operando em você, entre em contato.

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