Carlos Augusto ToigoPsicanalista | Neuropsicanalista
Lacan gostava de esquemas. Não por capricho — mas porque acreditava que certas coisas precisam ser vistas para serem entendidas. O Esquema L é um dos mais conhecidos e, para quem está começando a estudar psicanálise lacaniana, é uma porta de entrada fundamental. Ele aparece nos primeiros seminários de Lacan e responde a uma pergunta simples, mas que muda tudo: quando alguém fala, quem está realmente falando? E para quem?
O Esquema L organiza quatro posições em um diagrama:
S (Es) — o sujeito do inconsciente. Não é o "eu" que você pensa ser. É o sujeito que aparece nos lapsos, nos sonhos, nos atos falhos. Fala sem saber que fala.
a (autre) — o pequeno outro. O semelhante. A pessoa na sua frente — mas não como ela realmente é, e sim como você a imagina. Filtrada pela sua própria imagem.
a' (moi) — o eu. A imagem que você construiu de si mesmo. Quem você acredita ser. Uma construção necessária, mas imaginária — nascida do espelho e do olhar do outro.
A (Autre) — o grande Outro. A linguagem, a cultura, a lei, o simbólico. O lugar de onde vem a fala, as regras, o sentido. Não é uma pessoa: é a ordem que nos antecede e nos constitui.
O eixo que liga a' (eu) a a (outro) é o eixo imaginário. É aqui que acontecem as identificações, as rivalidades, as comparações. "Eu sou isso que vejo no espelho e no outro." É o eixo onde construímos ilusões sobre quem somos. Importante? Sim — sem ele não teríamos identidade nenhuma. Problemático? Também — porque ele nos prende numa imagem fixa de nós mesmos.
O eixo que liga S (sujeito do inconsciente) a A (grande Outro) é o eixo simbólico. É por aqui que a fala realmente circula — a fala que vem do inconsciente e se dirige ao Outro. Mas aqui está o ponto central do esquema: esse eixo é atravessado — barrado — pelo eixo imaginário. Ou seja, o que o sujeito tenta dizer de verdade é filtrado, distorcido, atrapalhado pela relação imaginária do eu com o outro. É por isso que Lacan dizia que o eu não é aliado da análise — é obstáculo. O eu quer manter a imagem intacta. O inconsciente quer falar a verdade. E a análise acontece nesse conflito.
Quando um paciente chega e diz "eu sou assim", "eu sempre fui assim", "eu sou forte" — ele está falando do eixo imaginário. Está falando do eu (a'), da imagem que construiu. O trabalho do analista não é reforçar essa imagem nem destruí-la. É escutar o que aparece por trás dela. Os lapsos, os sonhos, os chistes, as repetições — tudo isso são momentos em que o eixo simbólico fura o imaginário. São momentos em que o sujeito do inconsciente consegue falar, mesmo que por um instante. O Esquema L, no fundo, é um mapa. Ele mostra que toda comunicação humana é mais complexa do que parece — que quando falamos com alguém, estamos ao mesmo tempo falando com nossa própria imagem, com a imagem que fazemos do outro, e com algo que nos ultrapassa.