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Carlos Augusto Toigo Psicanalista CNP 07/5494 

Por que eu repito se me faz mal?

  • Foto do escritor: Carlos Augusto Toigo
    Carlos Augusto Toigo
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

A prática clínica no meu consultório eventualmente sempre evolui para uma questão que surge durante o processo de análise: por que eu repito se me faz mal?


Por que repetimos padrões que sabemos que nos fazem mal

A resposta nunca é simples. Precisa investigar além do que o paciente acha que sabe sobre si. Por que ele tira satisfação no desprazer?

Essa questão já intrigava Freud. Quase no final de sua vida e obra, ele escreve Além do princípio do prazer. Nesse texto procura entender um aspecto importante: somos movidos pelo prazer, nosso objetivo é o prazer, mas por que procuramos a dor?

Se pensarmos só nas questões lógicas e conscientes, não há explicação de fato. Parece um furo na teoria, algo sem sentido aparente. Mas quando falamos de psicanálise, falamos de inconsciente. E é nessa língua desconhecida que está a chave para entender a questão. Não se trata de desvendar algo — trata-se de interpretar uma língua que não se conhece.


A linguagem oculta que nos move

Dentro dessa linguagem que opera nos níveis inferiores da nossa percepção consciente, existem desejos e pensamentos recalcados. Herdeiros de traumas e necessidades infantis frustradas, principalmente relacionadas aos nossos cuidadores primários, que eventualmente se tornam necessidades latentes.

Essas necessidades nos acompanham toda a vida sem percebermos que estão ali. Mas elas falam conosco através de impulsos e atos que não reconhecemos como sendo nossos. Na verdade, se trata exatamente disso: um não reconhecimento. São nossos — só não queremos tomar a propriedade deles.


Um exemplo: a escolha do parceiro

Algumas demandas dessa fase se impõem ao longo da vida. A escolha de determinado tipo de parceiro, por exemplo, com características que nos intrigam e nos "seduzem" mesmo quando conscientemente observamos que vão nos fazer mal.

Isso pode estar atrelado — não como regra, mas como exemplo — à necessidade de consertar a relação com o pai ou com a mãe do passado. Procuramos alguém, sem nos darmos conta, que tenha a mesma característica. E repetimos com essa pessoa todo o drama que vivemos na infância, na tentativa de elaborar ou consertar.

Muitas vezes a pessoa sabe que vai fracassar. Mas o conforto do lugar familiar é um desejo oculto, uma necessidade maior e mais urgente que ter uma vida normal com um parceiro mais adequado. Existe uma busca de satisfação que nos é imposta a partir de uma necessidade que nem sabemos, conscientemente, que temos.


O além do princípio do prazer

Então vemos que esse além do princípio do prazer é isso: uma busca por um prazer inconsciente que, apesar de destrutivo, não paramos de repetir. A armadilha é da linguagem. Não sabemos o que está sendo dito, apenas agimos por impulso. A saída é traduzir essa língua para entender de onde vem, e o que fazer com a repetição.

Abandonar essa repetição pode ser angustiante. Temos mais medo de ser algo novo do que de abandonar o velho lugar — perigoso e doloroso, mas conhecido. A esse movimento damos o nome de gozo dentro da psicanálise lacaniana. É o lugar onde encontramos uma satisfação miserável no sofrimento.


O que impera nesse gozo? O desejo do Outro

E não um outro qualquer. Um Outro com O maiúsculo — aquele a quem damos importância e de quem queremos algo. Aprovação, reconhecimento, amor.

Mas eventualmente esse Outro não nos atende. Ou pode até atender, e ainda assim não ficamos satisfeitos. Vamos prosseguir insistindo, pedindo, procurando. Em vão. Nunca haverá a completude da resposta que aguardamos.

Insistimos porque temos a fantasia de que algum dia seremos reparados e curados por alguém. Mas quando estamos presos a essa demanda, esquecemos que não é o Outro que tem a chave dessa completude — somos nós mesmos.

Quando nos damos conta disso em análise, pode ser libertador. Mas para isso é preciso fazer a travessia: da dependência desse Outro para a independência. E essa independência tem como consequência assumir para si a responsabilidade dos próprios erros e acertos.


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