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Carlos Augusto Toigo Psicanalista CNP 07/5494 

Carlos Augusto Toigo Psicanalista CNP 07/5494 

Trauma sexual infantil, objetificação e o sexo — uma leitura psicanalítica

  • Foto do escritor: Carlos Augusto Toigo
    Carlos Augusto Toigo
  • 10 de abr.
  • 4 min de leitura

Atualizado: há 11 horas

Quando o sexo se organiza como "preço a pagar": uma leitura a partir de Ferenczi, Freud e Lacan.


Trauma sexual infantil, objetificação e o sexo — uma leitura psicanalítica

Em muitos atendimentos clínicos, surge o relato — especialmente de mulheres — que, apesar de buscarem intensamente o prazer sexual ("querer gozar muito"), experimentam o orgasmo como algo insuficiente, vazio ou mecânico. Frequentemente, esse quadro vem acompanhado de uma história de abuso sexual na infância, minimização por parte da família e experiências posteriores nas quais o corpo foi vivido como objeto de uso. Nessas situações, o sexo adulto muitas vezes se organiza como uma moeda de troca: algo que se "paga" para obter afeto, atenção, segurança ou controle.

Do ponto de vista psicanalítico, esse padrão não é mero sintoma comportamental, mas uma configuração subjetiva complexa, marcada pelo trauma e pelos destinos da pulsão sexual.


O trauma da sedução e o desmentido

Freud, em sua primeira teoria da sedução, e especialmente Sándor Ferenczi (1933), destacam como o abuso sexual na infância — mesmo quando não envolve penetração — constitui uma intrusão violenta na psique infantil. A criança, ainda em fase de constituição do eu, recebe uma excitação sexual prematura que não consegue simbolizar. O adulto impõe sua linguagem da paixão sobre a linguagem da ternura da criança, gerando o que Ferenczi chamou de confusão de línguas.

Quando a figura protetora — mãe, pai, cuidador — responde com frases como "os homens são assim mesmo", ocorre um segundo trauma: o desmentido (Verleugnung). A experiência dolorosa e violadora da criança é invalidada, produzindo vergonha, culpa e a crença de que o corpo dela existe para o gozo do outro. Essa invalidação impede a elaboração psíquica do acontecimento e favorece a identificação com o agressor — mecanismo descrito por Ferenczi no qual a criança, para sobreviver, incorpora o ponto de vista do abusador e assume parte da culpa.


A objetificação na adolescência e a repetição

Nas experiências sexuais da adolescência, quando a jovem se coloca "sempre na posição de objeto", observa-se a compulsão à repetição (Wiederholungszwang). O que foi vivido passivamente na infância retorna ativamente, agora com uma ilusão de controle: "se eu me ofereço, decido o preço."

Aqui, o sexo deixa de ser espaço de encontro mútuo e passa a funcionar como estratégia de sobrevivência. Lacan ajuda a pensar isso pela lógica do gozo: o sujeito busca no Outro um gozo que compense a falta, mas encontra apenas o gozo fálico limitado ou, em muitos casos, um gozo mortífero que não satisfaz. O corpo é oferecido como objeto a — causa de desejo do outro —, na tentativa de obter, em troca, reconhecimento ou poder.


O "gozo que não basta": dissociação e busca do excesso

A queixa de que "o gozo não é o bastante" e a necessidade de "gozar muito" apontam frequentemente para um fenômeno dissociativo. Durante o ato sexual, parte do eu se desconecta — despersonalização ou desrealização —, ecoando a dissociação que protegia a criança durante o abuso. O corpo responde fisiologicamente, mas o sujeito não se sente plenamente presente. O orgasmo, então, torna-se vazio — um gozo parcial que não toca o Real do trauma.

A hipersexualidade ou a busca por intensidade extrema podem ser entendidas como tentativa de:

  • Reapropriar o corpo ("agora eu controlo o prazer");

  • Entorpecer afetos dolorosos (raiva, vazio, vergonha);

  • Produzir um gozo tão forte que "quebre" a dissociação.

Trata-se de uma economia psíquica na qual o excesso de excitação sexual serve como defesa contra o trauma não simbolizado. Como apontam estudos psicanalíticos sobre sobreviventes, essa configuração frequentemente envolve baixa autoestima, dificuldades de intimidade verdadeira e a permanência da crença inconsciente de que o amor ou o cuidado só se obtêm mediante pagamento libidinal.


Considerações clínicas

No trabalho com esses casos, o cuidado com o setting e com a transferência é particular. O analista precisa acolher sem reeditar o desmentido ou a objetificação. O objetivo não é "curar" o desejo sexual, mas permitir que o sujeito elabore o trauma, ressignifique o corpo erógeno e possa, eventualmente, experienciar o sexo para além da lógica da troca ou da repetição.

Conceitos como a elaboração do trauma (Freud), a introjeção do agressor (Ferenczi), a cisão do eu e a possibilidade de uma nova inscrição simbólica são centrais. Muitas vezes, o percurso analítico permite que o "preço a pagar" deixe de ser o corpo oferecido e passe a ser o trabalho de luto e de construção de um desejo mais autêntico.


Considerações finais

O quadro descrito revela como o abuso sexual infantil, quando não elaborado, organiza toda uma economia do gozo na vida adulta. O sexo como "preço a pagar" e a insatisfação diante do prazer obtido não são falhas morais ou de caráter, mas marcas de uma história traumática que pede escuta e simbolização. A psicanálise, ao oferecer um espaço onde a palavra pode retomar o que foi silenciado ou desmentido, abre a possibilidade de que o sujeito transforme a repetição em história e o corpo-objeto em corpo de desejo próprio.

Se você vivenciou abuso sexual infantil e busca apoio: o Disque 100 (Disque Direitos Humanos) recebe denúncias e orienta sobre rede de proteção. Para apoio emocional em momentos de crise, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende pelo número 188 ou pelo chat em cvv.org.br, 24 horas por dia, gratuitamente e em sigilo. Esses recursos não substituem acompanhamento profissional, mas são pontos de partida válidos se você ainda não sabe por onde começar.



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