A Escansão na Psicanálise Lacaniana
- Carlos Augusto Toigo

- 23 de jun.
- 4 min de leitura
Atualizado: há 2 dias
O corte que rompeu com a IPA
Na maioria das escolas, a sessão tem hora certa para acabar — cinquenta minutos, o relógio manda. Lacan rompeu com isso. Para ele, a duração fixa era quase um ritual obsessivo. O tempo da sessão deveria ser ditado pelo discurso, não pelo cronômetro. Ele passou a praticar sessões de duração variável, as famosas "sessões curtas", em que o corte podia vir a qualquer momento.
Isso foi longe demais para a IPA, a associação internacional de psicanálise. A tensão se arrastou por anos, até que, em 1963, a IPA condicionou o reconhecimento do grupo de Lacan à sua remoção da lista de analistas didatas. Ou seja, ele não poderia mais formar analistas. Lacan chamou isso de "excomunhão", comparando-se a Spinoza. No ano seguinte, fundou sua própria escola e abriu o seminário em que anunciaria, logo de cara, que falava de seu lugar de excomungado.
Vale a precisão: não foi uma "expulsão" no sentido de arrancar uma carteirinha. Foi a recusa de reconhecê-lo como didata. Mas o efeito prático — e o nome que ele mesmo deu — foi o de uma excomunhão. A escansão, portanto, não é um detalhe técnico qualquer. É o ponto em que Lacan apostou a própria carreira institucional.
Para que serve cortar
Por que insistir tanto num corte? Porque o corte produz sentido. Quando o analista encerra a sessão num ponto preciso — logo depois de uma frase que escapou, de um lapso, de uma associação que o próprio analisando nem percebeu —, ele dá peso àquilo. O corte sublinha. Diz, sem dizer: isso aqui importa. O sentido daquela fala se fecha retroativamente, depois do corte, e não antes.
E tem o outro lado: cortar o que não engaja. Lacan distinguia a fala vazia da fala plena. A fala vazia é o blá-blá-blá, o discurso que gira em torno de si mesmo, em que o sujeito fala muito e não se implica em nada. A fala plena é aquela que toca a verdade do sujeito, que mexe com algo. A escansão pode furar a fala vazia para empurrar o analisando em direção à fala que engaja, que de fato analisa.
Até aqui, tudo bonito. O problema começa quando o corte muda de dono.
Quando a técnica vira álibi
Aqui chegamos ao ponto que me interessa de verdade. A escansão é uma das ferramentas mais poderosas da clínica — e uma das mais fáceis de corromper. Porque existe um uso da escansão que não tem nada de técnico: é o corte dado porque o analista, simplesmente, não aguenta mais ouvir.
O analista não é um santo. Ele se entedia, se irrita, cansa, fica de saco cheio. Isso é humano e inevitável. O que ele não pode fazer é transformar esse cansaço numa escansão e chamar de técnica. Quando o corte vem do "chega, não suporto mais isso", e não da lógica da escuta, a escansão virou álibi — uma justificativa elegante para um problema que é do analista, e não do analisando.
E o detalhe cruel é que os dois cortes são idênticos por fora. O corte que furou a fala vazia e o corte que só aliviou o tédio do analista têm exatamente a mesma aparência. Ninguém na sala consegue distinguir um do outro — ninguém, exceto o próprio analista que se conhece.
O incômodo é dado, não lixo
Então o ponto não é "o analista nunca pode sentir tédio ou irritação". Isso seria impossível, e seria pedir santidade onde só há gente. O ponto é o que ele faz com isso. O tédio, a irritação, o saco cheio — nada disso é lixo a ser escondido. É dado clínico. É a contratransferência falando, e ela tem coisas a dizer sobre aquela relação, sobre aquele analisando, sobre aquele momento da análise.
A pergunta certa não é "como faço para não sentir isso?", mas "o que esse meu incômodo está me dizendo?". E esse material tem um destino, que não é a sessão. É a supervisão e a análise pessoal do analista.
É lá que o incômodo se torna pensável, em vez de virar um corte apressado. O que sustenta o analista nessa posição — escutando a partir do que a análise pede, e não a partir do que ele aguenta — é o que Lacan chamou de desejo do analista.
No fim, é simples e exigente ao mesmo tempo: se o que o analisando traz começa a te encher, o problema não está no que ele traz. Está na sua escuta. E escuta se ajusta no divã — no seu.
A Importância da Escuta na Psicanálise
A escuta é fundamental na prática psicanalítica. É através dela que se estabelece a relação entre analista e analisando. O analista deve estar atento ao que é dito, mas também ao que não é dito. Cada pausa, cada hesitação, cada silêncio carrega um significado.
Quando o analista escuta de forma atenta, ele consegue perceber nuances que podem passar despercebidas. Isso enriquece o processo analítico. O analisando, ao sentir que sua fala é valorizada, pode se abrir mais. A escuta ativa gera um espaço seguro para que o analisando explore suas questões mais profundas.
O Desafio da Escuta Atenta
Entretanto, escutar não é uma tarefa fácil. O analista deve lidar com suas próprias emoções e reações. O desafio é manter a neutralidade e a objetividade. A escuta deve ser livre de julgamentos. O analista não pode permitir que suas próprias frustrações ou cansaços interfiram na análise.
A escuta atenta exige um trabalho constante de autoconhecimento. O analista deve estar ciente de suas próprias limitações e fragilidades. Isso não significa que ele deve se tornar um espectador passivo. Pelo contrário, ele deve ser um participante ativo, mas sempre com a consciência de que sua função é escutar.
Conclusão
A escansão e a escuta são pilares da psicanálise lacaniana. Elas demandam um compromisso profundo com o processo analítico. O analista deve estar disposto a se confrontar com suas próprias emoções e a escutar o analisando de forma genuína.
Esse trabalho não promete resultados rápidos. É um processo que exige tempo e dedicação. Mas é através desse esforço que se pode alcançar um entendimento mais profundo de si mesmo e das dinâmicas que nos movem. Se algo aqui te tocou, a análise começa numa conversa.



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