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Carlos Augusto Toigo Psicanalista CNP 07/5494 

Desejo depois dos 50: o que ninguém conta aos homens

  • Foto do escritor: Carlos Augusto Toigo
    Carlos Augusto Toigo
  • há 3 dias
  • 5 min de leitura

Existe uma queixa que chega ao consultório quase sempre em voz baixa, como quem confessa uma falha: "perdi o desejo". Homens de 50, 55, 60 anos — saudáveis, ativos, muitas vezes bem-sucedidos — que sentem que algo se apagou. E quase todos chegam com a mesma explicação pronta: "deve ser hormônio, é a idade".


Mas será que é mesmo?



A explicação hormonal explica menos do que parece


É verdade que a testosterona diminui com a idade — mas essa queda é lenta e gradual, e na grande maioria dos homens os níveis permanecem dentro da faixa normal por décadas. A famosa "andropausa", vendida como o equivalente masculino da menopausa, não existe da forma como se divulga: não há, no homem, aquele colapso hormonal abrupto que ocorre na mulher.


Isso não significa que o corpo não importe. Importa, e muito. Excesso de peso, pressão alta, sono ruim e alguns medicamentos podem, sim, afetar tanto a ereção quanto o interesse sexual — e por isso uma avaliação médica é sempre o primeiro passo. A boa notícia: boa parte disso é reversível sem reposição hormonal. Emagrecer, por exemplo, faz o próprio corpo voltar a produzir mais testosterona.


Mas eis o ponto: quando os exames vêm normais — e eles vêm normais na maioria das vezes — a pergunta muda de lugar. Se não é o hormônio, o que é?


Prefiro não tentar a falhar


Muitos homens que dizem ter perdido o desejo, na verdade, não o perderam: eles se **retiraram** dele. É diferente.


Funciona mais ou menos assim: em algum momento, houve uma falha — uma ereção que não veio, um encontro que não correspondeu à expectativa. A partir dali, cada nova tentativa vira uma prova. E diante de uma prova que se pode perder, muitos escolhem, sem perceber, não prestar o exame. "Prefiro não tentar a falhar." O desejo não morreu; foi colocado em quarentena para proteger algo mais precioso — a imagem de si.


Note a diferença: isso não é um problema de "combustível", é um problema de posição. E problemas de posição não se resolvem com reposição hormonal.


O mundo diz que sexo é coisa de jovem


Há ainda outra camada, e essa não está dentro do homem — está ao redor dele. Vivemos numa cultura que colocou a potência, a beleza e o sexo do lado da juventude. Toda a publicidade, todo o cinema, toda a estética dominante repetem a mesma mensagem: desejar e ser desejado é território dos jovens.


Houve épocas em que envelhecer tinha suas compensações simbólicas — o homem mais velho era o conselheiro, a autoridade, aquele cuja palavra pesava. Hoje, essa contrapartida praticamente desapareceu. O homem de 50 anos perde a potência de antes e não recebe nada no lugar. Não é fragilidade individual: é um mundo que não oferece a ele um lugar.


Isso ajuda a entender, por exemplo, um fenômeno conhecido: o homem maduro que busca mulheres muito mais jovens. Muitas vezes, o que ele deseja ali não é exatamente aquela mulher — é o que estar com ela diria sobre ele. É uma forma de pedir emprestada a juventude dela para se sentir jovem de novo. O problema é que empréstimos assim nunca quitam a dívida: a sensação de insuficiência retorna, porque a questão nunca esteve nela.


Ser visto, mais do que ver


Aqui chegamos a algo delicado e pouco falado. Para muitos homens, o que está em jogo no sexo não é apenas o prazer — é ser **percebido como potente**. Ele não quer apenas o encontro; quer que a parceira o veja capaz, viril, à altura. Quer ser visto, talvez mais do que ver.


Quando é assim, cada relação sexual carrega um peso enorme: ela deixa de ser um encontro e vira uma mensagem — "ainda sou capaz". E mensagens podem falhar. Por isso a falha dói tanto: não falhou um mecanismo do corpo, falhou uma declaração.


As relações maduras, de longa data, costumam aliviar essa pressão — e este é um dos seus tesouros escondidos. A parceira que conhece o homem há décadas já o viu falhar e permaneceu. O olhar dela não é mais um tribunal. Há acolhimento, cumplicidade, menos exigência. (O desafio dessas relações é outro: manter viva alguma dose de mistério e novidade dentro de tanta familiaridade — mas isso é assunto para outro texto.)


"Já fiz de tudo, não há mais novidade"


Uma última armadilha, das mais sofisticadas: o tédio. "Na minha idade, já vivi tudo, já experimentei tudo. O que sobrou?"


Parece lucidez, mas é uma defesa. Porque o desejo nunca funcionou à base de novidades — quem já se apaixonou pela mesma pessoa duas vezes sabe disso. Tratar as experiências da vida como uma lista de tarefas a riscar é garantir que, um dia, a lista acabe. Mas as experiências não são itens de uma lista: são lugares que se pode revisitar, e revisitar com cinquenta anos de vida é encontrar coisas que aos vinte e cinco passavam despercebidas.


Quando um homem declara o mundo esgotado, vale sempre a pergunta: será que o mundo acabou — ou será que declará-lo acabado é mais confortável do que arriscar desejar de novo?


O comprimido que responde à pergunta errada


Uma palavra sobre os remédios para ereção. Eles são um recurso legítimo e, em muitos casos, valioso — especialmente quando existe uma causa física real. O problema aparece quando a causa é outra: quando a falha nasceu da ansiedade, da cobrança, do medo de não dar conta — e o comprimido entra para calar essa angústia.


Aí se arma uma armadilha silenciosa. O remédio funciona, a ereção vem, e parece que o problema acabou. Mas repare no que aconteceu por baixo: aquele homem tomou o comprimido para responder à pergunta "será que eu ainda posso?" — e agora essa pergunta ficou **sem resposta para sempre**. Ele não sabe mais se pode; sabe apenas que o comprimido pode. A cada relação, a dúvida continua lá, apenas anestesiada. E arriscar uma noite sem o remédio vira algo impensável, porque seria reabrir justamente a prova que ele tomou o remédio para nunca mais prestar.


O resultado é curioso e triste: a ereção que poderia acontecer naturalmente — e que muitas vezes *pode* — fica condicionada ao fármaco. O corpo aprende a esperar pela química. E a potência, que era dele, passa a morar numa cartela na gaveta do criado-mudo. O homem queria ter certeza de que é potente; conseguiu apenas a certeza de que o comprimido é.


Por isso, quando não há causa física que o justifique, o remédio usado por conta própria não resolve a questão — ele a congela. Pode até servir, com acompanhamento, como um apoio transitório para quebrar o ciclo de ansiedade. Mas apoio transitório é aquele que um dia se larga. Quando vira condição permanente, é sinal de que a pergunta verdadeira nunca foi respondida — só foi silenciada.


Então, dá para reverter?


Na maioria dos casos, sim — e frequentemente sem hormônio nenhum. O caminho costuma combinar duas frentes:


**A do corpo:** avaliação médica honesta (exames hormonais, revisão de medicamentos, atenção ao peso, à pressão e ao sono). Cuidar do corpo devolve o substrato físico.


**A da escuta:** porque nenhum exame responde às perguntas que realmente importam. O que essa retirada do desejo está protegendo? Que imagem de potência esse homem não consegue abandonar? O que ele ganharia se pudesse desejar a partir do que é hoje, e não do que foi aos trinta?


O desejo depois dos 50 não é uma versão diminuída do desejo da juventude. É outro desejo — possivelmente mais livre, porque tem menos a provar. Mas chegar até ele exige atravessar algumas ilusões. E essa travessia, ninguém precisa fazer sozinho.


*Se este texto tocou em algo que você reconhece, a análise é um espaço para dar palavras a isso. Entre em contato.*


 
 
 

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