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Carlos Augusto Toigo Psicanalista CNP 07/5494 

O desejo masculino após os 50: uma leitura lacaniana da "perda de desejo"

Foto do escritor: Carlos Augusto Toigo
Carlos Augusto Toigo
13 de jul.
7 min de leitura

Atualizado: 2 de set.

Um percurso teórico-clínico para estudantes de psicanálise


1. Delimitando o problema: o que a queixa condensa


A queixa "perdi o desejo" é comum entre homens acima dos 50 anos. Essa afirmação condensa registros que a clínica precisa separar. No lado somático, é importante distinguir libido, excitação e função erétil. Esses são três fenômenos distintos que, muitas vezes, o discurso do paciente funde. A literatura endocrinológica é clara: o declínio da testosterona com a idade é lento e gradual. O hipogonadismo verdadeiro atinge apenas uma minoria dos homens nessa faixa etária. O conceito de "andropausa", análogo à menopausa, é contestado. A disfunção erétil após os 50 anos é, na maioria das vezes, vascular, associada a fatores como sobrepeso e hipertensão.


Esse dado médico tem uma consequência clínica importante para o analista: na maioria dos casos, a queixa de desejo diminuído não encontra explicação hormonal suficiente. Descartado (ou tratado) o somático, resta o essencial. E o essencial não é uma questão de quantidade de libido disponível, mas de posição do sujeito diante da falta.


2. A retirada do campo do desejo: "prefiro não tentar a falhar"


Um achado clínico recorrente é que muitos homens que se dizem sem desejo não perderam o desejo. Eles retiraram-se dele, geralmente após uma primeira falha erétil. A sequência típica é: falha → antecipação ansiosa → cada encontro sexual convertido em prova → retirada defensiva do campo.


Em termos lacanianos, o que está em jogo aqui não é a economia libidinal, mas a posição do sujeito na dialética do ter o falo. A primeira falha erétil golpeia a posição fálica. Aquele que tinha vê-se confrontado com a possibilidade de não ter. A retirada do campo sexual é, então, uma solução. O sujeito prefere suspender o desejo a expor-se à verificação da castração. Trata-se de uma escolha (inconsciente) estruturalmente análoga ao vel alienante: entre desejar-e-poder-falhar e não-desejar, o sujeito escolhe a perda que preserva a imagem.


A consequência clínica é clara: não se trata de "reativar" o desejo, mas de fazer aparecer o que o sujeito ganha mantendo-se retirado e a que ideal essa retirada serve.


3. O ideal congelado: quando o significante mata a metonímia


Lacan define o desejo como metonímico. Ele desliza de objeto em objeto porque nenhum objeto coincide com seu objeto-causa (o objet petit a), que é irrepresentável. Dessa definição decorre algo importante: o desejo nunca se alimentou de novidade objetal. O motor do desejo não é o inédito; é a falta sustentada.


Isso permite ler criticamente uma segunda figura clínica frequente: o homem que declara "já fiz tudo, já experimentei tudo, não há mais nada". Se o desejo é metonímico, a saturação do campo é estruturalmente impossível. Nenhuma soma de experiências esgota o que nunca foi da ordem do acumulável. A declaração de esgotamento não é, portanto, uma constatação. É uma posição. E uma posição defensiva refinada, pois projeta no mundo a falta que o sujeito não quer localizar em si. Não é que eu não posso mais, é que não há mais nada. O tédio apresenta-se como lucidez, mas opera como defesa.


A lógica subjacente é clara: tratar as experiências como itens de uma lista — possuídas, riscadas, colecionadas — é aplicar à experiência a lógica do ter, do inventário. Uma lista completa é uma lista morta.


Aqui se pode propor uma formalização: o sujeito está fixado num significante ideal congelado — a potência juvenil, o desempenho de outrora. Esse ideal funciona como medida desqualificadora de todo desejo atual. Ele só aceitaria desejar como aos 30. Essa fixação num ideal que mortifica o deslizamento metonímico aproxima-se mais da pulsão de morte do que do desejo propriamente dito. É um gozo mortífero. E vale observar sua estrutura temporal: enquanto em outras configurações o ideal desqualificador está no futuro, aqui ele está no passado. O já-vivido desqualifica o por-viver. Mesma estrutura, vetor temporal invertido.


4. O Outro juvenilista: uma castração discursiva


Até aqui, o problema parece intrapsíquico. Mas o falo, ensina Lacan em "A significação do falo", não é propriedade do sujeito. É significante no campo do Outro, e sua localização é historicamente contingente.


O discurso contemporâneo depositou o falo na juventude. Nem sempre foi assim: em outras configurações discursivas, o falo esteve do lado do senex — o patriarca, o ancião cuja palavra pesava por ter atravessado o tempo. A velhice já foi lugar de autoridade simbólica; hoje é lugar de déficit imaginário. Disso decorre que o homem que envelhece hoje sofre uma dupla castração: a do corpo e a do discurso. A segunda é a mais feroz, porque o Outro contemporâneo — juvenilista, performático, regido pelo imperativo de gozo — não oferece nenhum lugar simbólico para onde o falo possa migrar com a idade. Antes, perdia-se a potência do corpo e ganhava-se a do nome; hoje, perde-se a primeira e a segunda foi abolida.


Isso explica por que a retirada do desejo nessa faixa etária é epidêmica e não idiossincrática. Não se trata de homens individualmente frágeis, mas de um discurso que não lhes reserva lugar. O significante ideal congelado revela aqui sua origem: o sujeito não inventou o critério que o mortifica — ele o recebeu do Outro. O gozo mortífero tem infraestrutura discursiva.


5. A jovem como significante: ter o falo tendo-a


Essa moldura permite reler um fenômeno clínico e social conhecido: o homem maduro que deseja mulheres muito mais jovens. A hipótese é que, frequentemente, a jovem não é o objeto do desejo — ela é o falo. Sua juventude é o significante que o homem quer ter tendo-a. A estrutura é transitiva: ele não a deseja; deseja o que a posse dela significaria sobre ele.


Cabe ainda distinguir duas cenas sobrepostas. Na primeira, ele quer ser visto potente por ela: o desejo dela (real ou encenado) funciona como certificado. Na segunda, mais dissimulada, ela é insígnia endereçada ao olhar social: a jovem ao lado é legível no campo do Outro como prova de que ele ainda tem. Na primeira cena, há um encontro a dois; na segunda, a relação é fundamentalmente homossocial. Transcorre entre o sujeito e o olhar do Outro, com a mulher reduzida a portadora de significante. A distinção tem valor diagnóstico e direcional na clínica.


6. Fazer-se ver: a economia escópica da potência


"Ele quer ser visto, mais do que ver." Essa formulação, de aparência impressionista, é rigorosamente lacaniana. No Seminário 11, o circuito da pulsão escópica não se completa no ver, mas no se faire voir — fazer-se ver. A pulsão retorna sobre o sujeito, que se faz objeto do olhar.


O que a clínica do homem maduro frequentemente revela é uma economia sexual predominantemente escópica e narcísica. A cena sexual vale menos como encontro com o corpo do outro do que como dispositivo de captura de um olhar que o constitua como potente. A consequência decisiva é que a ereção deixa de ser meio e torna-se mensagem. O órgão inteiro convertido em significante endereçado ao Outro. Por isso, a falha é catastrófica: não falha um funcionamento, falha um enunciado. E por isso a retirada fecha o circuito: quem abandona o sexo está abandonando o campo do olhar, não o do gozo genital.


7. As relações maduras: alívio escópico e seu impasse próprio


As relações de longa data operam, nesse quadro, um alívio estrutural. A parceira que conhece o sujeito há décadas já testemunhou sua castração e permaneceu. Seu olhar não funciona mais como tribunal. O veredicto já foi dado, e foi de amor. Isso desativa parcialmente a exigência escópica. Não é preciso fazer-se ver potente para quem já viu a impotência e ficou.


A ressalva, porém, é freudiana. Em "Sobre a mais generalizada degradação da vida erótica", Freud mostra a tendência à dissociação entre correntes ternas e sensuais. O impasse da relação madura é o inverso simétrico do troféu: tanto acolhimento que não resta falta. O desejo exige intervalo, opacidade, algo no parceiro que não seja compreensão. A transparência total satura, e o desejo não circula em campo saturado. A questão clínica fina, para os casais de décadas, é como sustentar falta dentro da familiaridade. Como o parceiro permanece Outro, e não apenas continente.


8. Repetição, não recordação: o que significa "revisitar"


Se a saída não é a busca de novidades, tampouco é a nostalgia. O instrumento conceitual aqui é a distinção lacaniana, no Seminário 11, entre repetição e retorno do mesmo. A repetição é o lugar onde o encontro faltoso (tuché) insiste.


Revisitar uma experiência, nesse sentido rigoroso, não é reencontrá-la. É descobrir que ela nunca foi inteiramente tida. O que se revisita não é o objeto, é a falta que o objeto sempre escondeu. A lista estava incompleta desde o início — não por faltarem itens, mas porque nenhum item era aquilo. Kierkegaard, que Lacan conhecia bem, oferece a fórmula: a recordação repete para trás (e melancoliza); a repetição verdadeira repete para frente.


9. Direção do tratamento: separação


Advertência preliminar: nada do que precede autoriza a prescrição. Não se deve dar conselhos que degradam a análise em autoajuda. A pergunta não é como convencer o sujeito a desejar de novo, mas o que ele ganha mantendo o campo declarado esgotado, e a que custo. A conformação não é falta de imaginação. É uma solução, e o sujeito só a abandona quando ela deixa de compensar. O trabalho é fazer aparecer o custo, não vender a alternativa.


Em termos da dialética alienação/separação, o sujeito está alienado no significante do Outro ("potente/jovem"). A direção do tratamento aponta para uma operação de separação. O deslocamento de ser visto como para desejar a partir de sua falta própria. Não se trata de devolver ao sujeito a potência de antes. Isso seria colidir com o real do tempo. Mas de separá-lo do olhar que exige essa potência como condição de existência desejante.


Quanto ao somático, os tratamentos não competem. Nos raros casos de hipogonadismo confirmado, a reposição devolve o substrato — mas não devolve a posição desejante. Essa, nenhum hormônio repõe.


Considerações Finais


A análise não promete resultado. Promete trabalho. Se algo aqui te tocou, a análise começa numa conversa. O sintoma é sinal, não problema. A escuta é o que faço.


Referências de base

  • FREUD, S. Sobre a mais generalizada degradação da vida erótica (1912).

  • LACAN, J. A significação do falo (1958). In: Escritos.

  • LACAN, J. O Seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Especialmente os capítulos sobre a tuché e o autômaton, a pulsão escópica e as operações de alienação e separação.

  • KIERKEGAARD, S. A repetição (1843).


Nota: as considerações endocrinológicas mencionadas na seção 1 refletem o consenso geral da literatura médica e não substituem avaliação clínica especializada.

 
 
 

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