Real, Simbólico e Imaginário e o Taoismo
- Carlos Augusto Toigo

- há 5 dias
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"O Tao que se pode dizer não é o Tao constante" (道可道,非常道)

O Tao (道, dào no sistema pinyin) é um conceito difícil de tratar — e essa dificuldade não é acidental, é estrutural. Quando o Tao é explicado, ele já não está mais ali como ele é; está ali como conceito, como algo que ganhou contorno, nome, lugar no discurso. Dito de outro modo: o Tao explicado é exatamente aquilo que o Tao não é.
O Tao não é uma coisa, é uma operação
Uma aproximação possível, ainda que parcial, vem do pensamento chinês mais amplo: o Tao não é o espaço vazio nem a ausência de coisas, mas aquilo de onde tempo, espaço e matéria se desdobram, sem que ele próprio seja qualquer um desses. Não é uma base no sentido de fundamento — porque fundamento é coisa, é chão — mas algo mais próximo de uma operação: o movimento mesmo pelo qual há mundo, pelo qual algo se diferencia, retorna, se transforma. É espontâneo (a palavra chinesa é zì rán, "assim por si mesmo") e não pode ser nomeado, porque nomear é justamente parar o que não para.
Por que Lao Tsé escolheu a poesia
Dentro do Taoismo, há um autor — Lao Tsé (老子, Lǎozǐ) — que oferece um olhar particularmente afiado sobre essa dimensão. Sua obra, o Tao Te Ching (道德經), é composta por textos poéticos que apontam para o Tao sem explicá-lo. E essa escolha pela poesia não é estilística, é necessária: a poesia funciona porque o sentido nunca está no texto, está no que o texto contorna sem cobrir. A poesia diz o indizível justamente por não tentar dizê-lo diretamente. É o modo mais eficaz de transmitir o sentido do Tao — mas exige do leitor uma disposição que não é universal: a boa vontade de ver com olhos que vão além do que está escrito.
A contradição do primeiro verso
No verso "O Tao que se pode dizer não é o Tao constante", podemos nos deparar com uma contradição que à primeira vista não diz muito. Mas se usarmos a disposição de ir além, ela é bastante eloquente. Quando se fala "O Tao que se pode dizer…", se fala daquilo que pode ser articulado em palavras e conceito, pode ser simbolizado, pode ganhar contorno imaginário, pode virar coisa-com-corpo. Uso de propósito palavras familiares aos psicanalistas — vou tornar isso explícito mais adiante.
A frase continua: "…não é o Tao constante". Aí está a contradição aparente. Mas não é de aparências que se trata, porque o Tao está além das aparências — ou melhor, é o campo de fluxo onde as aparências se formam. Não é algo que se manifesta na linguagem, não se nomeia, e ao mesmo tempo existe sem ser coisa. Apenas opera, no movimento e na espontaneidade. É o indizível que escapa à conceituação — e, paradoxalmente, talvez mais real que a realidade.
O paradoxo do caractere 道: caminho e dizer
Vale uma observação sobre o próprio caractere. Em chinês, 道 (dào) significa duas coisas ao mesmo tempo: "caminho" e "dizer". O verso, lido com atenção à letra, encena um paradoxo que se inscreve no próprio caractere: o mesmo signo nomeia o que se busca e o ato de buscá-lo pela palavra. O verso poderia ser lido, sem violência alguma ao chinês: "O caminho que se pode caminhar pela palavra não é o caminho que perdura." A operação de dizer o Tao é, ela mesma, uma operação no interior do Tao — e por isso o trai. Não há um lugar de fora de onde se possa nomeá-lo sem perdê-lo.
E aqui chego ao que me interessa neste estudo.
Lacan e o pensamento chinês: uma influência documentada
Para o mundo ocidental, esse tipo de filosofia oriental costuma ter ares de misticismo — só porque sempre achamos que o nosso misticismo é mais científico que o dos outros. Mas há algo nesse modo de pensar que não passou despercebido para o psicanalista francês Jacques Lacan. Sabemos hoje, inclusive, que Lacan estudou chinês clássico ao longo dos anos 1970 e leu Lao Tsé diretamente em chinês. Não se trata, portanto, de uma especulação minha sobre uma possível afinidade — trata-se de uma influência real, ainda que rastreá-la integralmente exigiria outro tipo de trabalho.
O que me interessa é o que essa influência pode iluminar.
O inconsciente não é um iceberg
Em algum momento do seu trabalho sobre o inconsciente, Lacan se depara com uma questão que Freud já tinha posto e que continua aberta: o que é, afinal, o inconsciente? A imagem corrente — a parte submersa do iceberg — é didática mas perigosa, porque seduz para a coisa. Pior, seduz para a coisa metafísica: um reservatório escondido, cheio de conteúdos, um lugar com volume e profundidade. Se o inconsciente é isso, ele vira uma substância oculta, uma espécie de outro mundo subterrâneo. Lacan recusa essa imagem porque ela substancializa o que, na verdade, é operação.
O inconsciente tem estrutura de Tao
Minha hipótese é que, nessa busca por pensar o inconsciente sem coisificá-lo, Lacan encontra no pensamento chinês uma estrutura que lhe é útil. Não digo que o inconsciente seja o Tao — isso seria simplório, e seria justamente refazer o erro de transformar o conceito em coisa, agora com nome exótico. Digo que o inconsciente, em Lacan, tem estrutura de Tao: opera como vazio gerativo, é anterior à constituição do sujeito como espaço onde a potencialidade das coisas existirem encontra sua matéria fundadora, mas nunca pode existir como algo, apenas serve de suporte. Esse espaço indizível gera, com uma espontaneidade que frustra qualquer explicação, a vacuidade operativa que torna possível a mente se estruturar.
Dessa estrutura surge algo que acredita ter corpo — que reage às suas necessidades, aos estímulos do mundo, e é moldado por eles. É ali que o sujeito se estrutura. Mas ele não é a base, é uma manifestação dela. Não é alma, não é ser, não é essência. É um resultado, um produto que talvez exista, ou melhor, finge saber que existe. É onde as estruturas do consciente e do pré-consciente se formam.
O ego, a consciência e o que não se diz
Onde está a consciência? Não há resposta — porque quando falamos da estrutura consciente, falamos do ego: aquele que acha que se conhece, que se acredita consciente de si. Mas não da consciência em si. O ego é o que se diz; e o que se diz, justamente por se dizer, não é o constante.
O consciente que se pode dizer não é o consciente constante
E é aqui que faço a inversão — o sacrilégio profano e duplamente herético que o verso de Lao Tsé e a leitura que faço de Lacan me autorizam:
O consciente que se pode dizer não é o consciente constante.
Aquilo que o ego articula como "eu" não é o sujeito; é seu disfarce. O que perdura, o que insiste, o que opera por baixo do que se diz — esse não tem nome, não tem corpo, não tem face. Não é coisa. É operação. É, no léxico de Lacan, o que ele virá a chamar de real: aquilo que não cessa de não se inscrever. É, no léxico de Lao Tsé, o Tao constante: aquilo que não se deixa dizer sem deixar de ser o que é.
Não proponho aqui uma equivalência entre os dois conceitos. Proponho uma ressonância — e a hipótese de que talvez seja precisamente essa ressonância que tenha permitido a Lacan pensar o inconsciente fora das armadilhas substancialistas em que ele corria o risco de cair. Pensar a psicanálise, em alguma medida, fora da psicanálise.



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