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Carlos Augusto Toigo Psicanalista CNP 07/5494 

O Outro

  • Foto do escritor: Carlos Augusto Toigo
    Carlos Augusto Toigo
  • 2 de jun.
  • 3 min de leitura

Na teoria lacaniana existe um nome para uma certa forma de relação do indivíduo com os outros: o Outro, com O maiúsculo. Esse Outro é diferente dos outros do dia a dia — ou, como eu gosto de chamar, dos outrinhos — porque não se trata de um ser biológico nem de uma entidade que exista de fato.


É algo que habita todos nós, mas que sempre nos escapa. Ele nunca chega a ocupar de vez o lugar de uma pessoa ou de um ente; em vez disso, desliza entre as figuras com quem nos relacionamos por terem autoridade — ou às quais nós atribuímos autoridade.


E aqui vai um detalhe importante: o Outro não nasce com a gente nem aparece de repente. Ele já está lá antes de nós, como a ordem da linguagem e da lei na qual vamos sendo inscritos. O que acontece muito cedo não é a criação do Outro, e sim o momento em que entramos em relação com ele. Isso se dá dentro do conflito edipiano.


É ali que a criança percebe algo incômodo: a mãe, ou a figura materna, tem interesse em outra coisa que não seja ela. Existe uma Outra coisa que detém o afeto materno, que o sequestra. Essa coisa costuma se apresentar pela figura (ou função) paterna — alguém de fora da relação mãe-filho que tem o poder de fazer a mãe desejar para além do filho. É aquele que detém o falo, ou, pelo menos, é assim que a criança imagina: afinal, se ela mesma tivesse, a mãe não precisaria de mais ninguém.


Num complexo de Édipo bem-sucedido — aquele que produz o neurótico "padrão" que a teoria espera —, esse Outro passa a ocupar o papel de quem detém algo que castra, que submete. É ele quem tem o poder de dizer o que eu preciso ser para me tornar desejável. A psicanálise dá um nome a esse ponto: o ideal do eu. Não é a imagem idealizada que faço de mim (isso seria o eu ideal), mas o lugar, situado no campo do Outro, a partir do qual eu me avalio para tentar ser digno do desejo de alguém.


Essa primeira relação com a figura paterna funda um modelo que vai se repetir com todas as figuras de autoridade que encontrarmos pela frente — todas aquelas que parecem ter a chave para dizer quem eu sou dentro do desejo do Outro. São os professores, chefes, maridos, esposas, padres, o governo: tudo o que representa a lei.


E por que a lei importa tanto? Porque é por meio dela que recebemos, de forma simbólica, a mensagem: "você não terá a sua mãe, porque é a mim que ela deseja". A criança então entende que precisa se submeter à lei paterna — o que Lacan chama de Nome-do-Pai — e usá-la como espelho para poder, um dia, ser objeto de desejo de outra pessoa.


Aqui vale um cuidado: quando falo em figura paterna e materna, não estou falando de homem e mulher. Estou falando de funções, que podem ser exercidas por qualquer sexo. Inclusive a função que castra. Ela pode ser um pai morto que aparece no discurso materno, em frases como "seu pai não ia gostar que você fizesse isso" — a lei se faz presente sem que ele esteja ali. Pode até ser um emprego: a mãe que precisa se ausentar porque a submissão ao trabalho é o que garante que a família tenha o que comer. Em todos os casos, há um terceiro termo que rompe a dupla mãe-filho.


Quando essa relação com o Outro se estabelece, dá para entendê-la como um olhar, dentro do mundo do sujeito, que parece vigiar, impor limites e punir. Essa figura não existe de fato, mas sua presença simbólica é real. "Se eu não me comportar, vou ser castigado." Dessa estrutura nasce uma herdeira: o supereu. É ele quem garante, diante das figuras de autoridade, que a gente se comporte.


Mas atenção: a simples presença de uma figura de autoridade não a transforma, por si só, no Outro. É preciso que aconteça uma identificação — que o supereu reconheça, por familiaridade, que o Outro está ali materializado diante de nós, e que então a gente passe a agir como aprendeu. É, no fundo, o que a psicanálise chama de transferência.


E tudo isso é completamente inconsciente. Nutrimos a ilusão de que estamos no controle da nossa vida — até que basta um simples olhar de desaprovação para nos desestabilizar, ou nos pegamos odiando aquele chefe ou professor sem saber bem por quê. É nessas horas que dá para flagrar, em ação, a nossa velha relação com o Outro.



 
 
 

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02 de jun.
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Gostei da forma como o texto foi escrito e a linguagem pedagógica.

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